Um deus azul, onisciente, onipotente e onipresente vive entre os humanos desde os anos 60. Essa figura divina, chamada de Dr. Manhattan – nome inspirado no projeto que levou à construção da primeira série de bombas atômicas americanas –, com sua capacidade de manipular a matéria, se teletransportar e vencer guerras está ao lado dos valores e do povo dos Estados Unidos.
![]() Reprodução / DC Comics Dr. Manhattan: um deus vivendo entre os humanos |
![]() Reprodução / DC Comics |
Aliás, é a relação do destino e das escolhas feitas pela humanidade uma das metáforas essenciais retratadas na existência do Dr. Manhattan. Dois aspectos dessa relação se destacam na sua trajetória. O primeiro é a constante presença do relógio, de seus precisos mecanismos de funcionamento e de seu sentido de um tempo sempre presente e ininterrupto, como se tudo sempre existisse, sem começo e sem fim. O físico Jon Osterman quando criança queria seguir a profissão de relojoeiro do pai, graças aos seus conhecimentos sobre a montagem de um relógio conseguiu se reconstruir atomicamente após o acidente que o desintegrou e virar um super ser e o castelo que constrói em seu mundo solitário é feito à semelhança de peças de um imenso relógio. O segundo elemento diz respeito aos fatos que terão um impacto nos destinos dos seres e do cosmo. Assim como prevê o “efeito borboleta” da teoria do caos, ações insignificantes transformam as vidas das pessoas e do planeta. O surgimento do Dr. Manhattan é fruto do esquecimento do relógio da namorada de Osterman no bolso de seu avental e seu exílio, que permite a Ozymandias pôr em prática seu mirabolante plano, é resultado do desdobramento de uma crise amorosa.
Nesse cenário, o futuro da humanidade à beira de um holocausto nuclear só poderá ser alterado pela intervenção dessa figura divina, mas que ao longo de sua trajetória começa a descobrir seu humanismo. Como diria o professor Milton Glass: “Estamos todos vivendo à sombra de Dr. Manhattan”.
![]() View Enlarged Image Reprodução / DC Comics O argumento e o texto junto com as inovações na linguagem fizeram de Watchmen um marco na história dos quadrinhos |
A densidade e a complexidade do texto de Watchmen já são suficientes para colocá-la no topo das mais importantes graphic novels. Alan Moore transformou o universo dos super heróis como nunca havia sido feito. Além de torná-los realisticamente humanos e algumas vezes sublimes, ele abordou questões filosóficas, geopolíticas, científicas, éticas e psicológicas com uma profundidade equivalente a das mais importantes obras literárias já escritas. Mas a forma como ele fez isso também foi impactante. As técnicas de narrativa utilizadas caracterizam o que muitos consideram como típicas da literatura pós-moderna, como a combinação da forma tradicional dos quadrinhos com outras linguagens, como trechos de um livro de memórias, artigos de jornais, relatórios psiquiátricos, cartas, memorandos. Elementos que reforçam a interação entre realidade histórica e ficção na narrativa. Aliás, na verdade, são três narrativas que se entrecruzam o tempo todo ao longo da história sem nenhum prévio aviso ao leitor. Uma dessas narrativas, o fio condutor, mostra o “tempo presente”, que se passa em 1985 numa Nova York que, como inserida num universo paralelo, reflete as conseqüências da existência de um super ser vivendo entre os humanos e a tensão de uma iminente e definitiva guerra nuclear. Uma segunda narrativa mostra em flashback a história dos Watchmen, das suas origens aos eventos mais recentes, e conseqüentemente a evolução dos fatos históricos que conduziram a humanidade à situação insana daquele tempo presente. Por fim, um garoto sentado ao lado de uma banca de jornal lendo um gibi sobre piratas constrói uma nova narrativa, na qual a aventura dos piratas se funde com as outras duas, como que construindo metáforas entre ficção e realidade e vice-versa. Além disso, o trabalho de ilustração de Dave Gibbons com seus closes nos personagens e fusões de cenas incorporou elementos da linguagem cinematográfica aos quadrinhos. Tudo isso junto fez de “Watchmen” um marco da nona arte. |