A música sempre esteve presente na vida de Vinicius de Moraes. Sua avó materna e sua mãe eram pianistas, seu pai, além de escrever poesia, tocava violão. Nas palavras do poeta: “Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música (…), cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto”.
![]() Reprodução Toquinho e Vinicius, parceria que a partir dos anos 70 rendeu vários sucessos da canção popular |
A relação oficial entre Vinicius e o cinema não poderia ter começado de forma mais irônica. O poeta foi nomeado, em 1936, substituto de Prudente de Moraes Neto na representação do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Hoje, é quase impossível imaginar Vinicius, a própria encarnação da liberdade e do arrebatamento criativo, atuando como censor em qualquer área, mas esse foi só o primeiro passo de sua intensa trajetória no cinema. Em 1941, Vinicius passa a trabalhar como crítico de cinema e colaborador no Suplemento Literário do jornal "A Manhã", ao lado de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Nesse período, passa a assumir posições bem polêmicas na crítica cinematográfica, chegando a entrar em debates ferrenhos para defender o cinema mudo em relação aos novos filmes falados. Vinicius, muito mais que crítico, sempre foi um apaixonado por cinema e suas críticas retratam a admiração que sentia e a intensa atração que a sétima arte exercia sobre ele. Em 1947, já empossado como diplomata, ele passa a estudar cinema com Orson Welles e Gregg Toland e chega a lançar uma revista, com Alex Viany, a “Film”. Em 1952, Vinicius participa da delegação brasileira no Festival de Cinema de Punta del Este, além de fazer a cobertura jornalística do evento para o jornal “Última Hora”. No mesmo ano, vai à Europa para estudar a organização dos grandes festivais de cinema, como o de Veneza, Cannes e Berlim, com vistas à futura realização do Festival de Cinema de São Paulo, nas comemorações do quarto centenário da cidade. Em suas incursões pelo mundo do cinema, Vinicius também chega a empunhar a câmera, fotografando e filmando as cidades históricas de Minas Gerais para um filme sobre a vida de Aleijadinho, sob a direção de Alberto Cavalcanti, projeto que não chega a ser concluído. Mas é por meio do teatro que Vinicius acaba atingindo sua maior consagração cinematográfica. Sua peça “Orfeu da Conceição”, que foi premiada no Concurso de Teatro do IV Centenário da Cidade de São Paulo e ganhou cenários de Oscar Niemeyer na montagem teatral de 1956, foi transformada no filme “Orfeu Negro”, em 1959, pelo diretor francês Marcel Camus, alcançando repercussão mundial e conquistando a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. |