Vinicius de Moraes: quando a literatura vira música

Autor: 
Andrea de Barros

A música sempre esteve presente na vida de Vinicius de Moraes. Sua avó materna e sua mãe eram pianistas, seu pai, além de escrever poesia, tocava violão. Nas palavras do poeta: “Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música (…), cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto”.

Toquinho e Vinicius parceria que rendeu vários sucessos
Reprodução
Toquinho e Vinicius, parceria que a partir
dos anos 70 rendeu vários sucessos da canção popular

Em 1953, Vinicius compõe seu primeiro samba, “Quando tu passas por mim”, criando letra e música. Em Paris, em 1955, compõe uma série de canções de câmara junto do maestro Cláudio Santoro.

Mas é em 1956 que ocorre o encontro que viria a mudar os rumos da música popular brasileira: Vinicius convida Antonio Carlos Jobim para criar a trilha sonora de sua peça “Orfeu da Conceição”, dando início à parceria que ainda incluiria João Gilberto e daria origem à bossa nova. Em 1958, o lançamento do LP “Canção do Amor Demais” leva ao público, pela primeira vez, as canções de Tom e Vinícius, na voz de Elizete Cardoso e acompanhadas pela inédita batida do violão de João Gilberto, que também canta em algumas faixas. O samba “Chega de Saudade”, incluído no disco, seria considerado o marco inaugural da renovação da música popular brasileira, o novo hino da bossa-nova.

Ao mesmo tempo em que Vinicius se aproximava cada vez mais do público, ganhando fama e consagração popular, o olhar da crítica literária se enviesava diante do que considerava uma auto-depreciação do poeta. No calor do momento, a crítica ainda não conseguia perceber a coerência do encaminhamento de Vinicius para a música popular, dentro de seu projeto literário. Segundo Eucanaã Ferraz, “a bossa nova e seus desdobramentos não tardariam, no entanto, a ratificar o alcance das escolhas de Vinicius, tendo em vista o quanto a canção popular incorporaria uma inteligência sofisticada, em diálogo com as experiências antes restritas à literatura”.

Na década de 60, Vinicius passa a compor com diversos músicos e instrumentistas, além de manter sua parceria com Tom Jobim e João Gilberto, com Baden Powell (com quem cria uma série de afro-sambas), Carlos Lyra, Ary Barroso, Edu Lobo, Francis Hime e Dorival Caymmi. É nesse período que estréia sua carreira de shows, que numa década de ditadura e repressão, viria a conquistar um público imenso e participativo, para o qual a beleza e a alegria das letras e melodias vinicianas representavam um grito de liberdade no cenário obscuro da época.

Os anos 70 dão início à sua parceira com Toquinho, que viria a acompanhá-lo, até o fim da vida, em shows e gravações antológicas.

Vinicius e o cinema

A relação oficial entre Vinicius e o cinema não poderia ter começado de forma mais irônica. O poeta foi nomeado, em 1936, substituto de Prudente de Moraes Neto na representação do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Hoje, é quase impossível imaginar Vinicius, a própria encarnação da liberdade e do arrebatamento criativo, atuando como censor em qualquer área, mas esse foi só o primeiro passo de sua intensa trajetória no cinema. Em 1941, Vinicius passa a trabalhar como crítico de cinema e colaborador no Suplemento Literário do jornal "A Manhã", ao lado de Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Nesse período, passa a assumir posições bem polêmicas na crítica cinematográfica, chegando a entrar em debates ferrenhos para defender o cinema mudo em relação aos novos filmes falados. Vinicius, muito mais que crítico, sempre foi um apaixonado por cinema e suas críticas retratam a admiração que sentia e a intensa atração que a sétima arte exercia sobre ele. Em 1947, já empossado como diplomata, ele passa a estudar cinema com Orson Welles e Gregg Toland e chega a lançar uma revista, com Alex Viany, a “Film”. Em 1952, Vinicius participa da delegação brasileira no Festival de Cinema de Punta del Este, além de fazer a cobertura jornalística do evento para o jornal “Última Hora”. No mesmo ano, vai à Europa para estudar a organização dos grandes festivais de cinema, como o de Veneza, Cannes e Berlim, com vistas à futura realização do Festival de Cinema de São Paulo, nas comemorações do quarto centenário da cidade. Em suas incursões pelo mundo do cinema, Vinicius também chega a empunhar a câmera, fotografando e filmando as cidades históricas de Minas Gerais para um filme sobre a vida de Aleijadinho, sob a direção de Alberto Cavalcanti, projeto que não chega a ser concluído. Mas é por meio do teatro que Vinicius acaba atingindo sua maior consagração cinematográfica. Sua peça “Orfeu da Conceição”, que foi premiada no Concurso de Teatro do IV Centenário da Cidade de São Paulo e ganhou cenários de Oscar Niemeyer na montagem teatral de 1956, foi transformada no filme “Orfeu Negro”, em 1959, pelo diretor francês Marcel Camus, alcançando repercussão mundial e conquistando a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.