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Vinicius estudou em Oxford, foi diplomata, morou em diversos países e sempre cercado de amigos, casou-se nove vezes, viveu apaixonadamente e se tornou um mito que permanece vivo. Em recente pesquisa realizada entre internautas, pelo Jornal do Brasil, para apontar as cem personalidades mais influentes da cultura latino-americana, Vinicius ficou em 3º lugar, atrás de Pablo Neruda e Gabriel Garcia Marques.
Entre seus contemporâneos, o impacto de Vinicius não foi menor. Carlos Drummond de Andrade, amigo do poeta, disse que "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. (…) Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.
A vida boêmia, intensa e apaixonada levada por Vinicius se refletia, sem dúvida, na sua poesia e na sua música, mas também ofuscava o brilho próprio de suas obras. Para Eucanaã Ferraz, “Vinicius de Moraes é o caso típico do artista que, ao longo do tempo, foi sendo sobreposto à própria obra. Fala-se muito do poeta, mas lê-se insuficientemente sua poesia”.
A simplicidade de Vinicius, sua fala pontuada por diminutivos carinhosos, seu gosto pelo popular e o diálogo franco que ele sempre manteve com seus interlocutores por meio de sua obra - fossem esses leitores, ouvintes, amigos – acabou contribuindo para que seu trabalho atraísse pouco ou quase nenhum interesse da crítica acadêmica. É raro encontrar estudos acadêmicos sobre a poesia de Vinicius, como se tudo o que se precisa conhecer dela já tivesse sido revelado. Mas na originalidade da escrita viniciana e na sua capacidade de permanecer fresca, viva e sedutora para leitores dos mais diferentes entre si, ainda há muito o que adentrar, atendendo ao chamado do poeta:
Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence a seu tempo
- Entrai, irmãos meus!
Vinicius não foi o poeta “fácil”, descompromissado, como uma leitura desatenta de seus poemas poderia insinuar. Os manuscritos, cartas e documentos de Vinicius de Moraes, que fazem parte do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira, da Fundação Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, revelam algo muito diferente disso. Segundo Eliane Vasconcelos, a consulta aos originais de Vinicius mostra um processo criativo elaborado, no qual o poeta seguia aprimorando cada frase até a exaustão: “ele não se comprazia com o primeiro ato da escritura. Seus poemas são burilados, aperfeiçoados, como quem conhece perfeitamente seu ofício”.