Vinicius de Moraes: o grande poetinha

Autor: 
Andrea de Barros

Biografia de Vinicius de Morae
Reprodução

Os poemas de seus dois primeiros livros, “O caminho para a distância” (1933) e “Forma e exegese” (1935) viriam a ser renegados por Vinicius já no final da década de 40. Ele parecia enxergar sua própria produção poética como que dividida em duas fases: a primeira, ainda marcada pela formação católica-cristã na qual os temas místicos e transcendentais se destacam, se encerra com a publicação de “Ariana, a mulher” (1936); a segunda - que englobaria toda a sua criação poética a partir de “O falso mendigo”, publicado em “Novos Poemas” (1938), e “Cinco elegias” (1943), que representam a transição completa entre as duas fases -, caracteriza-se pela trajetória do poeta em direção a uma maior proximidade da vida comum, do universo material e mundano. O idealismo da primeira fase é substituído por uma visão da poesia como fato real, como coisa da vida.

Segundo Francisco Bosco, “Vinicius faz parte de uma linhagem de artistas que continuam, sob suas diversas condições históricas, o projeto romântico de unir arte e vida. (…) Era um artista que criava formas de vida, e que, como todo artista, engajou-se na luta de tentar dar vida às suas formas (os poemas, as letras, as peças de teatro etc)”.

A poesia de Vinícius, entrelaçando arte e cotidiano, torna-se símbolo de liberdade, de paixão, de beleza e erotismo – é a linguagem pulsando viva, ritmada, absolutamente dona de sua própria vida:

Olhe somente a vida dos meus versos
Que a vida do meu verso – é a minha vida.

Escrevendo em versos livres ou dentro das formas poéticas clássicas, principalmente o soneto, Vinicius esbanjava espontaneidade, conferindo à sua escrita a combinação rara de uma construção sintática extremamente elaborada a um estilo despretensioso, autêntico, verdadeiro. Seus grandes temas – a paixão, a mulher e a morte – são tratados com uma beleza envolvente, numa linguagem sedutora, cheia de ritmo e sensualidade.

Vinicius estudou em Oxford, foi diplomata, morou em diversos países e sempre cercado de amigos, casou-se nove vezes, viveu apaixonadamente e se tornou um mito que permanece vivo. Em recente pesquisa realizada entre internautas, pelo Jornal do Brasil, para apontar as cem personalidades mais influentes da cultura latino-americana, Vinicius ficou em 3º lugar, atrás de Pablo Neruda e Gabriel Garcia Marques.

Entre seus contemporâneos, o impacto de Vinicius não foi menor. Carlos Drummond de Andrade, amigo do poeta, disse que "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. (…) Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.

A vida boêmia, intensa e apaixonada levada por Vinicius se refletia, sem dúvida, na sua poesia e na sua música, mas também ofuscava o brilho próprio de suas obras. Para Eucanaã Ferraz, “Vinicius de Moraes é o caso típico do artista que, ao longo do tempo, foi sendo sobreposto à própria obra. Fala-se muito do poeta, mas lê-se insuficientemente sua poesia”.

A simplicidade de Vinicius, sua fala pontuada por diminutivos carinhosos, seu gosto pelo popular e o diálogo franco que ele sempre manteve com seus interlocutores por meio de sua obra - fossem esses leitores, ouvintes, amigos – acabou contribuindo para que seu trabalho atraísse pouco ou quase nenhum interesse da crítica acadêmica. É raro encontrar estudos acadêmicos sobre a poesia de Vinicius, como se tudo o que se precisa conhecer dela já tivesse sido revelado. Mas na originalidade da escrita viniciana e na sua capacidade de permanecer fresca, viva e sedutora para leitores dos mais diferentes entre si, ainda há muito o que adentrar, atendendo ao chamado do poeta:

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence a seu tempo
- Entrai, irmãos meus!

Vinicius não foi o poeta “fácil”, descompromissado, como uma leitura desatenta de seus poemas poderia insinuar. Os manuscritos, cartas e documentos de Vinicius de Moraes, que fazem parte do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira, da Fundação Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, revelam algo muito diferente disso. Segundo Eliane Vasconcelos, a consulta aos originais de Vinicius mostra um processo criativo elaborado, no qual o poeta seguia aprimorando cada frase até a exaustão: “ele não se comprazia com o primeiro ato da escritura. Seus poemas são burilados, aperfeiçoados, como quem conhece perfeitamente seu ofício”.