Infelizmente os problemas enfrentados pela produção de Tropa de Elite extrapolaram os sets de filmagem. Três funcionários da empresa Drei Marc, que fez as legendas do filme, foram identificados como os responsáveis por “vazar” cópia do longa na internet. A partir daí, o filme começou a ser reproduzido e comercializado em camelôs em todo o Brasil.
A pirataria chegou ao ponto de lançar Tropa de Elite 2, Tropa de Elite 3 e Tropa de Elite 4, todos produções e documentários que não têm nada a ver com o filme.
Lançado em maio de 2006, o livro "Elite da Tropa" traz relatos impressionantes do cotidiano dos policiais de elite. Apesar das contribuições do ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, que escreveu em parceria com o policial, André Batista, e o sociólogo, Luis Eduardo Soares. Padilha afirma que o filme não é uma adaptação do livro. |
Confira trechos da entrevista com o diretor José Padilha, o roteirista Rodrigo Pimentel e o produtor Marcos Prado.
José Padilha, diretor
Ao escolher um personagem que é policial do Bope como narrador você não escolheu o ponto de vista do Bope?
JP – Escolhi um ponto de vista que é semelhante ao do Pimentel e de outros policiais. Existe um enorme cinismo na polícia. Eles dizem: “seu filme é maravilhoso, mas vamos fingir que a polícia não é assim porque eu sou da polícia”. Meu filme é sobre a incompatibilidade entre diferentes grupos sociais. No filme, a polícia convencional acha que corromper é normal, diz: “não vou trocar tiro com marginal armado até os dentes por um salário de R$ 500 reais por mês”. É pouco, claro, mas a partir disto eles têm que corromper? Para eles o cara do Bope, que sobe o morro para matar traficante, é otário.
A PM canta uma versão debochada do grito de guerra dos integrantes do Bope que diz “faca na caveira e nada na carteira”. Para o Bope, que não aceita corrupção, o policial convencional é quase um inimigo. O estudante e o cara da ONG convivem com o traficante. O Bope não, luta contra eles. Depois, para o estudante, fumar maconha é legal, ele não pensa que está financiando a arma de quem atira no policial. O conflito entre as diferentes éticas desses grupos sociais e a hipocrisia é que são subjacentes à violência. O filme olha esta situação de fora, sob a ótica de um cara inteligente, que entendeu isso e quer pular fora. O filme não concorda com a ótica do Nascimento. O filme quer dizer: “olha o que a gente vive. Vamos pensar sobre isto”.

Imagem cedida por Belemcom
Crédito: Rogério Resende
José Padilha
A PM não te impediu de trabalhar?
JP – A PM teve uma reação grande ao filme. Normalmente você pede um “nada a opor” do Batalhão da área em que irá filmar, que é uma carta pedindo licença e que alguém lê e carimba, aprovando. No nosso caso, eles não forneciam esse documento. Tudo ia para o comando da polícia, tive que me reunir com um monte de coronéis que faziam uma inquisição. Perguntavam: “que filme é esse?” e se voltavam para os outros PMs e pediam: “anota tudo o que o Padilha disser”.
E como você conseguiu essas locações?
JP – No final as pessoas esclarecidas da PM venceram as pouco esclarecidas. Isso tomou muito do meu tempo, tive que lidar com um milhão de confusões que um filme normal não teria. Mas quando veio a aprovação “de cima”, a polícia colaborou com a gente. A resistência inicial terminou quando entenderam que o filme não era uma adaptação do livro. Tive que mostrar o registro do roteiro e do livro, com datas, para provar isto.
Você imaginava que seu filme ia tomar essa dimensão?
JP – Faço filmes para a transformação e a discussão, de que adianta fazer outro tipo de filme? Não estou dizendo que os filmes escapistas não tenham valor, mas minha motivação não é ganhar dinheiro, é contar uma história bem contada. Estou fazendo um filme que espelha uma realidade. A cúpula da polícia já deu o feedback para o Pimentel reconhecendo que o filme fala a verdade. Minha encrenca é com a hipocrisia. E não tenho problema nenhum em ir contra a hipocrisia.
Rodrigo Pimentel, roteirista
A realidade dos policiais é aquela mesma que o filme mostra? E o curso do Bope, ficou fiel?
RP – O salário aumentou um pouquinho. Antes um capitão ganhava quinhentos reais, hoje são mil e poucos reais. Um soldado hoje recebe oitocentos reais/mês. O Bope nessa época tinha cento e vinte homens, hoje são quatrocentos. São policiais que têm entre vinte a vinte e oito anos, aceleradíssimos, pois o curso lhes proporciona uma lavagem cerebral, para que ele se considere um super-homem. É uma estratégia: se ele não se achar super-homem, não entra numa favela à noite debaixo de tiro, não dá certo.
Você tem saudades do Bope?
RP – A melhor coisa do mundo é ser daquela turma. Se você quiser punir um oficial do Bope, é só afastá-lo do Batalhão. O orgulho de pertencer a um grupo que tem uma ética serve como um remédio maravilhoso contra a corrupção. Ser do Bope é uma blindagem, somos o policial com auto-estima. Nós ganhamos o mesmo salário do PM comum, mas temos a auto-estima.
Como foi a convivência de ex-traficantes com policiais de verdade durante as filmagens?
RP – Eu era o elo que ligava os dois grupos e nunca escondi dos policiais a origem destas pessoas. Aliás, conhecia cada uma delas há anos, sou amigo dos rappers, gosto deles. Mas essa convivência foi muito profissional, porque hoje eles são totalmente regenerados. Há até alguns mais preconceituosos do que nós com relação ao tráfico.
Marcos Prado, produtor
Como foram as relações com os traficantes para o pessoal da produção, que chegava antes no morro?
MP – Vou contar uma história: após o roubo das armas a gente ainda insistiu em filmar no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Lá o dono do morro nos abordou para uma conversa. Ele estava convencido de que a polícia iria subir o morro atrás da gente como tinha acontecido no Leme. Nesse interrogatório ele começou a apontar vários problemas que achava que estavam acontecendo, como ter fios desencapados no chão.... No meio das reclamações ele quis saber se a gente havia levado um policial para o uma cena específica no Babilônia. E mandou trazer um jornal, aonde tinha saído o retrato falado do possível seqüestrador da equipe e das armas, que era de um cara que morava ali no morro dos Prazeres. Comecei a passar um rádio para o nosso contato na associação de moradores, mas o sujeito não respondia. E aí o cara diz: “vamos dar uma voltinha”. Aí fomos eu, o Zé e o Perigoso, andando em direção ao mato. Ali comecei a ouvir um zunido fino no meu ouvido, de adrenalina... Pensava, “será que ele vai matar os três de uma vez só? Isso vai dar um problema muito sério para ele”. De repente, depois de tentar várias vezes, o sujeito da associação atende e sobe o morro para nos ajudar. Além da falta de grana, este momento foi bem dramático.

Imagem cedida por Belemcom
Crédito: Rogério Resende
Marcos Prado
O filme Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, realizado em fevereiro de 2008. O filme brasileiro dividiu a crítica no festival, sendo apontado tanto como uma obra "fascista" quanto um filme "inteligente". |