Território perigoso

A princípio, Shaw não foi levado a sério; considerou-se que ele estava atrás de publicidade. Sua história parecia inconsistente. Como ele pôde reconhecer o Norseman, se havia apenas um punhado deles em operação na Grã-Bretanha? Por que o avião canadense teria se desviado para o quadrante perigoso da “zona de descarga”, onde os aviões de guerra aliados se livravam das bombas não lançadas sobre o inimigo? E os horários não batiam: os registros indicavam que os Lancasters começaram a soltar as bombas às 13 h 40, enquanto o Norseman de Miller só decolou de Twinwood às 13 h 55.

Mas nem todos desprezaram a história de Shaw. Nesbit contava com os depoimentos dos colegas de Shaw do Lancaster, que atestaram sua seriedade, apesar de não poderem confirmar a história. O lançador Ivor Pritchard e o artilheiro Harry Fellows, únicos tripulantes que, segundo Shaw, também tinham visto o avião mergulhar no mar, já tinham morrido.

Um dos pontos obscuros foi facilmente esclarecido. Nesbit concluiu que Shaw poderia ter reconhecido o avião de Miller por ter sido treinado em Manitoba, Canadá, onde o Norseman era muito usado por navegadores iniciantes.

No entanto, para verificar se teria sido possível o encontro entre os aviões de Shaw e Miller sobre o canal, Nesbit teria de localizar os vôos. O acesso a outros arquivos permitiu a Nesbit delimitar a localização da “zona de descarga”, que jamais tinha sido indicada em mapas oficiais. Pela primeira vez ela poderia ser confrontada com a rota de vôo do Norseman. Eles estavam a cerca de 15 km de distância.

Um pequeno erro de avaliação da navegação, um grau a mais ou a menos na bússola, bastaria para levar o avião em que Miller estava à zona de descarga. Os registros da Força Aérea dos EUA sobre o piloto, John Morgan, revelaram que ele se qualificara recentemente, e, de acordo com um piloto que Nesbit entrevistou, tinha pouca experiência em vôo por instrumentos com tempo ruim. Ele teria de contar com uma simples bússola para sobrevoar o canal, e poderia facilmente ter se desviado do curso.

A diferença de horários, porém, permanecia. De volta aos arquivos públicos, ele analisou os registros. Repentinamente, ficou claro que a RAF operava no horário de Greenwich. Sempre o fizera, para assegurar uma posição fixa do sol, da lua, dos planetas e estrelas. A base norte-americana em Methwold, Norfolk, de onde a esquadrilha de Shaw partiu, operava na hora local. Havia portanto a diferença de uma hora, pois uma determinação especial de guerra dava aos britânicos uma hora a mais de luz do dia durante o inverno. Na verdade, Miller partira 45 minutos antes que os Lancasters alcançassem a zona de descarga, e não 15 minutos depois. A determinação de Roy Nesbit tinha dado resultado.

Registro do diário de bordo

O diário de bordo da base norte-americana em Norfolk registrou a saída do Lancaster cujo navegador era Fred Shaw. A hora de aterrissagem assinalada é 14:20h – os Lancasters estariam sobre o canal da Mancha na mesma hora que o avião de Miller. A nota “aeronave convocada a retornar” mostra que os aviões voltaram sem usar as bombas e tiveram de lançá-las sobre a zona de descarga.

Assim, o que ocorreu foi que o pequeno Norseman que levava o major Glenn Miller estava bem adiantado em sua viagem através do canal da Mancha quando os Lancasters da RAF receberam ordens de liberar suas bombas. Roy Nesbit está convencido de que o Norseman, com um piloto inexperiente nos controles e o famoso músico a bordo, dirigiu-se diretamente para a área abaixo da qual os enormes e ruidosos Lancasters abriam seus compartimentos de bombas.

Recapitulando...

Vôos cancelados pelo nevoeiro

Na base de Twinwood, em Bedfordshire, o tempo ruim e a visibilidade baixa impediram que os aviões decolassem na manhã de domingo, 15 de dezembro de 1944. O major Miller poderia se atrasar um dia; a ordem do general Eisenhower era “partir até o dia 16”, mas o avião decolou em direção a Paris às 13 h 55. A hora da partida foi, durante muito tempo, considerada uma prova que contradizia a teoria do bombardeio, até que se soube que os Lancasters operavam no horário de Greenwich.

Os Lancasters voltam para casa

Cancelada a missão em Siegen, na Alemanha, 139 Lancasters da RAF voltavam para a sua base em Norfolk. Por questões de segurança, eles não podiam aterrissar ainda carregados. Assim, retornaram pela “zona de descarga” para liberar as bombas sobre o canal da Mancha.

“Uma pipa voou”

O avião de Miller tinha metade do tamanho de um Lancaster. Suas asas chatas e arredondadas davam-lhe um desenho característico visto de cima. O avião era o leve Noorduyn Norseman, muito usado no Canadá, onde o navegador Fred Shaw recebera treinamento. Ele reconheceu o monomotor e viu-o cair.

Área perigosa

A zona de descarga era uma área circular de 16 km de diâmetro, localizada cerca de 45 km ao sul de Beachy Head. Não estava marcada nos mapas oficiais. Embarcações amigas e aviões aliados que atravessavam o canal eram colocados a par da localização da zona e a evitavam. O tráfego aéreo deveria usar o corredor de segurança das forças expedicionárias aliadas, cerca de 15 km a leste.

As últimas notas de Miller

Duas semanas antes de morrer, Miller gravou no famoso estúdio Abbey Road, em Londres. Colaboradores como os sargentos Ray McKinley e Johnny Desmond juntaram-se a ele para gravar o que seria seu último disco. O álbum continha uma seleção das canções favoritas do público tocadas por sua orquestra, que, diferentemente de sua banda de antes da guerra, contava com muitos instrumentos de corda.

Miller usara harmonias vibrantes nas suas chamadas “transmissões secretas”. Especialmente contratados pela Agência de Informação de Guerra, tais programas eram transmitidos para as tropas aliadas em território inimigo e considerados parte do esforço de guerra. A sua capacidade de elevar o moral dos soldados era apreciada pelos comandantes norte-americanos. “Depois das cartas de casa, a banda de Glenn Miller era o que mais levantava o ânimo nas operações européias”, afirmou o general Doolittle.


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