Canções para quem é de lugar nenhum

O auge da poética e da musicalidade dos Titãs foi entre 1986 e 1988. Nessa época saíram os CDs ”Cabeça Dinossauro” e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e aconteceram as apresentações ao vivo que construíram a reputação da banda. Mas os sucessos que emplacaram ao longo da segunda metade dos anos 80 refletem melhor a diversidade musical dos Titãs.

Um dos clássicos do repertório da banda é “Televisão”, faixa-título do segundo álbum lançado em 1985. A canção apresenta uma típica musicalidade new wave com uma letra divertida e irônica sobre a influência da televisão no comportamento humano. O refrão reproduz o bordão – Ô cride, fala pra mãe – utilizado pelo comediante Ronald Golias em um dos programas humorísticos de maior sucesso na TV brasileira, nas décadas de 60 e 70. Assim, de uma forma bem-humorada, os versos enfatizam o empobrecimento e o rebaixamento que a dependência televisiva causa:

A televisão me deixou burro, muito burro demais
Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais
O sorvete me deixou gripado pelo resto da vida
E agora toda noite quando deito é boa noite, querida.
Ô cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro que um espirro fosse um vírus sem cura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe !
A mãe diz pra eu fazer alguma coisa mas eu não faço nada
A luz do sol me incomoda, então deixo a cortina fechada
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais.
Ô cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar meu coração captura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe!

A canção “Televisão” é um exemplo do estilo dos Titãs da primeira e melhor fase de sua carreira (1984-1989). Com comicidade, eles abordam o tema do uso dos meios de comunicação de massa como manipuladores da população. A letra mostra os resultados negativos que a televisão – um dos mais poderosos instrumentos da indústria cultural – traz sobre os telespectadores. Na canção, temos um narrador que reconhece a sua total passividade em relação ao meio. O “emburrecimento” (A televisão me deixou burro, muito burro demais), a perda da capacidade crítica (Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais), o comportamento emocional (Que tudo que a antena captar meu coração captura) e o rebaixamento a uma condição sub-humana (E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais) seriam os resultados dessa exposição do narrador aos programas televisivos, segundo a canção.

Dentro de repertório de canções com críticas sociais, políticas e comportamentais dos Titãs, uma das que se destacam é “Comida”. Suas estrofes constroem um discurso com reivindicações que vão além da visão tradicional de primeiras necessidades. Colocar a satisfação dos desejos humanos como amor, diversão e arte no mesmo patamar das necessidades básicas traz uma visão de mundo diferenciada (e mais sofisticada que a dos tradicionais discursos políticos), como mostram seus primeiros versos:

Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer.

“Porrada” é outra canção que mostra a veia crítica do grupo em relação aos valores tradicionais. Sobre uma sonoridade punk, a letra traça de forma irônica o retrato de uma sociedade hipócrita, de aparências, autoritária e injusta, com um refrão que pode ser interpretado desde um discurso fascista até uma postura de inconformismo e rebeldia:

Nota dez para as meninas da torcida adversária
Parabéns aos acadêmicos da associação
Saudações para os formandos da cadeira de direito
A todas as senhoras muita consideração.
Porrada
Nos caras que não fazem nada.
Medalhinhas para o presidente
Condecorações aos veteranos
Bonificações para os bancários
Congratulações para os banqueiros
Porrada
Nos caras que não fazem nada.
Distribuição de panfletos
Reivindicação dos direitos
Associação de pais e mestres
Proliferação das pestes
Porrada
Nos caras que não fazem nada.

Uma particularidade da obra dos Titãs é que, ao contrário de boa parte dos conjuntos que fazem canção pop, não há no repertório do grupo uma produção consistente de canções românticas. E em algumas incursões do grupo nesse tema há uma abordagem que tende propositadamente para o brega, como nas sonoridades de “Sonífera Ilha” ou de “Insensível”. Mas mesmo sem um significativo repertório de canções “sérias” de amor, o grupo conseguiu tornar-se um dos mais importantes do pop-rock brasileiro. 
O sucesso dos Titãs junto ao público e à crítica é resultado de uma produção, principalmente na fase inicial da carreira do grupo, que trazia inúmeras qualidades poéticas, musicais e performáticas. Muito do que veio depois, a partir dos anos 90, não atingiu o mesmo patamar.