História dos Titãs

Um grupo de alunos de um dos colégios da elite paulistana com aura esquerdista na virada dos anos 70 para os 80 constituiu o núcleo do que viria a ser um dos destaques do pop-rock brasileiro. Os Titãs do Iê-Iê, como se chamavam no início, eram uma miscelânea de idéias, influências e estilos que iam da MPB ao punk, do concretismo à arte performática. Apesar das influências e participações na vanguarda paulistana, movimento de música independente e à margem do show business, os Titãs do Iê-Iê assumiam o desejo de fazer parte do que fosse mais popular na indústria cultural. E esse desejo se concretizou.

A estréia oficial do grupo aconteceu em outubro de 1982. Os Titãs começaram a mostrar seus shows no circuito das danceterias paulistanas, casas noturnas que foram essenciais para a divulgação das novas bandas do pop-rock brasileiro nos anos 80. Nesse período, em função da diversidade de estilos que produziam, o grupo evitou ter alguma de suas músicas incluídas nas coletâneas de novas bandas ou lançar um compacto, pois eles pensavam que uma única canção não refletiria a diversidade artística dos Titãs.

Fiéis a esse conceito, conseguiram em 1984 lançar seu primeiro álbum. “Titãs”, já sem o “Iê-Iê” no nome e sem Cyro Pessoa como integrante, traz canções covers como “Marvin”, “Querem Meu Sangue” e “Balada para John e Yoko”. Entre as composições próprias estava “Sonífera Ilha”, uma mistura de new wave e brega, com letra nonsense, que se torna uma das mais executadas nas rádios. O sucesso de “Sonífera Ilha” mais o visual new wave do grupo e suas coreografias esquisitas fizeram deles uma das atrações dos populares programas de auditório dos anos 80, como Chacrinha, Bolinha, Raul Gil e Hebe Camargo, entre outros. Logo após o lançamento do primeiro álbum, os Titãs trocaram seu baterista. No lugar de André Jung, que acabaria indo para o Ira!, entrou justamente Charles Gavin, ex-baterista do Ira!.

Em 1985, eles lançaram o segundo álbum “Televisão”, que teve a direção artística de Liminha. O ex-baixista de Os Mutantes seria um elemento fundamental na sonoridade da banda a partir daquele momento, principalmente nos dois discos seguintes, que levariam os Titãs ao Olimpo do rock nacional. O álbum traz sucessos como “Insensível”, “Não Vou Me Adaptar” e a faixa-título “Televisão”. Havia também canções mais pesadas, como “Massacre”, que sinalizaram o tom hardcore do que viria a seguir.

Em novembro de 85, o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes foram presos por porte e tráfico de heroína, respectivamente. Apesar de ser réu primário, Arnaldo permaneceu preso durante 26 dias, já que o crime de tráfico de drogas é inafiançável. No julgamento, eles foram condenados, mas puderam cumprir suas penas em liberdade.

Show dos Titãs na abetura dos Rolling Stones
Foto: Monica Zarattini/AE
Os Titãs na abertura do show dos Rolling Stones em 2006
Coincidentemente ou não, após esse episódio os Titãs produziram dois de seus melhores trabalhos: os álbuns “Cabeça Dinossauro”, lançado em 1986, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, lançado em 1987. Em “Cabeça Dinossauro”, nove das treze faixas tornaram-se clássicos do grupo, entre elas duas canções que se referem diretamente à prisão de Bellotto e Antunes: “Polícia” e “Estado Violência”. A veia crítica do grupo apareceu também de forma ácida em “Porrada”, “Homem Primata” e “Igreja”. O som ganhou peso e agressividade, refletindo o estado de espírito das letras e da banda. Eles aproveitaram e incluíram “Bichos Escrotos” no álbum, uma das primeiras composições do grupo e uma autêntica canção punk que acabou sendo censurada para execução pública em função do palavrão que trazia nos seus versos. “Cabeça Dinossauro” transformou-se em um disco fundamental do rock nacional. Ainda no final daquela década foi considerado o melhor disco brasileiro dos anos 80 em uma enquete feita pelo Jornal do Brasil junto a jornalistas e artistas. Os Titãs tinham chegado ao Olimpo e permaneceriam lá algum tempo.

No final de 1987, o grupo voltou a lançar um álbum recheado de sucessos e de qualidades. “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, apesar de não ser tão agressivo quanto o anterior, é um trabalho carregado de críticas sociais e com uma sonoridade pesada. Entre os destaques do álbum, considerado um dos melhores do ano pela crítica, estão “Comida”, “Diversão” e “Lugar Nenhum”.

Além de terem na bagagem dois dos melhores álbuns da história do rock nacional, os Titãs iniciaram 1988 apresentando algumas das melhores performances ao vivo de um grupo de rock brasileiro. Os oito integrantes do grupo reforçados pela guitarra de Liminha mostraram uma presença de palco impressionante e uma sonoridade impactante nos shows. O resultado foi reconhecido pela crítica especializada e mesmo nos festivais internacionais realizados no país a banda fez performances em pé de igualdade com os grupos estrangeiros do primeiro time do rock. Com esses méritos, o grupo partiu para a gravação de seu disco ao vivo na noite roqueira do Festival de Jazz de Montreux (Suiça). O álbum “Go Back” lançado ainda em 1988 registrou a performance de 15 sucessos do grupo.

Em 1989, os Titãs lançaram o experimental álbum “Õ blesq blom” e com ele abandonaram o hardcore dos discos anteriores, enveredaram por influências regionais, resgataram elementos tropicalistas e pareciam prenunciar o início do fim de uma era. O CD tem canções que se transformaram em sucessos nacionais como “Flores”, “Miséria” e “O Pulso”. Num dos seus últimos momentos no Olimpo do rock nacional, a banda vence com o videoclipe da canção “Flores” o prêmio de melhor clipe estrangeiro da MTV norte-americana, o Vídeo Music Awards. Apesar do sucesso, os Titãs assim como quase todos os grandes nomes do pop-rock brasileiro dos anos 80 enfrentariam uma queda em sua popularidade e na qualidade de suas canções nos anos 90.

A década de 90 começou com a ascensão comercial do pop sertanejo, a estagflação causada pelas medidas econômicas do governo Collor e uma crise de criatividade no pop-rock nacional, que somente iria se recuperar a partir de 93 com o surgimento do movimento manguebeat e dos novos grupos inspirados pelo grunge de Seattle (EUA). Nesse cenário, os Titãs optaram por trocar o seu produtor. Em 1991, eles assumem a produção de “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, último trabalho com a presença de Arnaldo Antunes. Para os álbuns seguintes, “Titanomaquia”, de 1993, e “Domingo”, de 1995, a produção coube a Jack Endino, famoso produtor ligado à cena grunge de Seattle e responsável pelo primeiro disco do Nirvana. Os discos trouxeram alguns sucessos, mas o grupo ficou longe de repetir a qualidade poética e musical do final dos anos 80.

Coincidência ou não, a volta dos Titãs às paradas de sucesso se deu com a fórmula: antigos sucessos, MTV Brasil e Liminha. Em 1997, a banda gravou um show para a série Acústico MTV, com novos arranjos para sucessos como “Comida”, “Go Back”, “O Pulso”, “Família”, “Flores”, “Homem Primata”, “Televisão” e “Polícia”, entre outros, com a ajuda e sob a produção de Liminha. O disco vendeu mais de 1,7 milhão de cópias e gerou uma série de shows pelo país.

Desde então a banda manteve-se na ativa com certa evidência em novas versões acústicas, shows ao vivo, como a turnê em 2007 com Os Paralamas do Sucesso, e com o lançamento de álbuns inéditos. Nesse período, o grupo enfrentou e sobreviveu à trágica morte do seu guitarrista Marcelo Fromer, vítima de um atropelamento por uma motocicleta em 2001, e a saída do baixista Nando Reis em 2002. Além de canções, discos e shows, os Titãs realizaram o lançamento de novos grupos, como os Raimundos e o Mundo Livre S/A, através do selo Banguela que criaram no meio dos anos 90. Seus integrantes lançaram também discos solos e investiram em projetos paralelos, como o do guitarrista Tony Bellotto, que tem escrito livros policiais.

Como a maioria dos grupos do pop brasileiro dos anos 80, ainda em atividade, são os sucessos daquela época que mantêm os Titãs como um dos nomes de destaque, mesmo com todos os desfalques que o grupo sofreu. Com uma trajetória que inclui do brega ao punk, os Titãs têm refletido a diversidade estética e comportamental da canção pop, com tudo o que ela tem de bom e de ruim.