As telenovelas e o comportamento dos brasileiros

Há décadas as telenovelas têm sido classificadas como um produto de entretenimento de pouco ou nenhum valor cultural e, até mesmo, de serem prejudiciais aos seus telespectadores. Vários fatores políticos e estéticos sustentam essa análise e alimentam o preconceito intelectual contra as telenovelas, mesmo quando são escritas por respeitados dramaturgos como Dias Gomes.

Saramandaia
TV Globo / Divulgação
Sônia Braga e Juca de Oliveira em cena de "Saramandaia"

Desde o final dos anos 80, no entanto, emergiu uma nova visão sobre elas. Num momento, em que a produção das teledramaturgias atingia seu melhor momento criativo e de audiência, elas passam a ser observadas sob novas perspectivas por alguns pesquisadores. Para eles, as telenovelas constituíram-se como um gênero que dialoga com o público e que não necessariamente impõe uma visão de mundo. Sob esse olhar, os seus espectadores participam efetivamente da construção de sentidos que as teledramaturgias trazem.   

Apesar de extensas – chegam a ficar no ar durante dez meses – e sujeitas a várias interferências, da emissora, dos patrocinadores, da sociedade civil, as telenovelas no Brasil são obras autorais. Ao longo das décadas, muitos dos seus escritores e diretores têm se engajado em levar por meio das tramas desenvolvidas idéias e valores progressistas à população. Numa espécie de merchandising social, questões como gravidez indesejada e na adolescência, AIDS e o uso de preservativos, formas de relacionamento sexual mais abertas e flexíveis, as consequências do alcoolismo, o drama das crianças desaparecidas e a problemática agrária no Brasil têm sido colocadas e gerado discussões e reflexões nas diferentes classes sociais e regiões do país.

Vale tudo
TV Globo / Divulgação
Os personagens César Ribeiro (Carlo Alberto Riccelli) e Maria de Fátima (Glória Pires) em cena de "Vale Tudo"

Nesse sentido, estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram que as telenovelas têm influenciado o comportamento dos brasileiros a longo prazo. As variações na taxa de natalidade e no número de divórcios no país nas últimas décadas, por exemplo, podem ter como uma de suas várias causas o modelo das famílias retratadas nas novelas televisivas. Ao apresentarem núcleos familiares com poucos filhos e homens e mulheres, que mesmo separados ou divorciados, levam uma vida feliz, as novelas estabelecem referências de comportamento que, segundo esses estudos, influenciam os seus telespectadores [fonte: BID].

Um dos fatores que contribuem para essa influência é que desde os anos 70 as telenovelas brasileiras tornaram-se mais realistas, distanciando-se do exagero melodramático que as caracterizavam até então. Em seu estudo sobre o fenômeno, no livro “Telenovela, consumo e gênero”, a antropóloga Heloísa Buarque de Almeida mostra que os telespectadores reagem criticamente aos conteúdos das novelas principalmente em relação aos temas políticos, morais – destacadamente em questões relativas à sexualidade – e quanto à promoção do consumo feita pelo gênero.

Na obra “Vivendo com a Telenovela”, as pesquisadoras Maria Immacolata Lopes, Sílvia Borelli e Vera Resende afirmam que a telenovela, a partir dos personagens que inserem no cotidiano de seus espectadores, coloca modelos de comportamento que servem para o debate, a interpretação, a crítica, a projeção ou a rejeição dos telespectadores. Assim, os temas propostos pelas novelas – sejam políticos, como uma crítica ao populismo e ao coronelismo, ou morais, como o machismo – passam a ser considerados de interesse público.