Enquanto “Star Tek”, a série original, foi inspirada pelos valores mais nobres da modernidade, as seqüências a partir de “Star Trek: The Next Generation” trazem uma visão que poderíamos classificar como “pós-moderna” do universo.

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A tripulação da USS Enterprise em "The Next Generation";
ao centro o capitão Jean-Luc Picard
Isso se reflete para começar na tripulação da Enterprise, que se tornou muito mais diversificada, com espécies de vários pontos das galáxias. A humanidade já não é mais o centro do universo. Antes, a missão da Enterprise original era ir “até onde nenhum homem jamais esteve”. Agora, ela é deve ir “onde ninguém jamais esteve”.
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Além disso, questões relacionadas ao sobrenatural, totalmente ignoradas na série original, aparecem em “Star Trek: The Next Generation”. E não há mais buscas por verdades absolutas, já que elas são relativas e diferentes para cada cultura, como preconizam os cânones da pós-modernidade.
Em “The Next Generation”, as aventuras dessa nova tripulação em uma nova Enterprise acontecem cem anos após as da original e sob o comando do capitão Jean-Luc Picard. Em sua primeira missão, eles se encontram com “Q”, um estranho ser, uma espécie de entidade divina com poderes de onisciência e onipotência, de moralidade ambígua, que será um dos principais exemplos de questões como fé e religiosidade inseridas na série.
Mais pra frente, mas ainda num período em que a nova Enterprise patrulha o espaço sideral, uma estação espacial ocupada militarmente por anos pela raça cardassiana, próxima ao planeta Bajor, recebe um novo comandante: Benjamin Sisko. Sua missão é reconstruir a gigantesca estação – a Deep Space Nine – e também proteger uma fenda espacial cobiçada por vários impérios. Começava a série “Star Trek: Deep Space Nine”. Nela, a Federação já não é uma unanimidade. Os bajorianos a vêem como um poder imperialista e ela tem cada vez mais inimigos. Além disso, questões místicas passam a ter um papel importante em várias das aventuras.
Muito do espírito de “Star Trek”, a série original, persistiu nas seqüências televisivas – de “Star Trek: The Next Generation” a “Star Trek: Enterprise”. Mas houve uma mudança essencial na filosofia entre a série clássica e as que vieram depois. Na primeira “Star Trek”, prevalece uma visão otimista, que acredita que os avanços científicos e tecnológicos e que o humanismo, expresso principalmente na democracia moderna, constituem o caminho para o progresso moral, social e para alcançar a harmonia e a felicidade. Mas a partir de “Star Trek: The Next Generation”, um certo pessimismo paira nos episódios. Já não há mais certeza de que o conhecimento é necessariamente objetivo e moralmente bom, nem que a verdade seja única. O relativismo cultural e uma visão holística, o que inclui ponderar racionalidade com intuição e emoção, dão o tom da busca pelas verdades e pelo conhecimento.
A sensação é de que sem o galanteador capitão Kirk por perto, o universo se tornou muito mais complexo, incerto e sombrio.
![]() Reprodução / "Trekkies 2" / Paramount Pictures Tony Alleyne, um trekkie britânico em seu apartamento que reproduz o interior da USS Enterprise |
O fanatismo por “Star Trek” tem conseqüências. A principal delas é se tornar um trekker ou um trekkie, dependendo do ponto de vista. Para o dicionário Oxford, “trekkie” é “um fã do programa norte-americano de televisão de ficção científica Star Trek”. No entanto, alguns fãs mais contidos, incomodados com a má fama do termo por conta das bizarrices dos mais fanáticos, preferem o termo trekker. Seja um ou outro, o fato é que os personagens e as sagas de “Star Trek” mobilizam fãs no mundo inteiro, com uma dedicação de fazer inveja a outros fenômenos da cultura pop. Eles se vestem como os personagens, tatuam seus corpos com os símbolos da série, fazem jantares temáticos e vão a convenções que reúnem milhares de fãs, seja nos Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Alemanha, Japão ou no Brasil. Muitos dos eventos servem como fonte de arrecadação de fundos doados a hospitais e outras instituições beneficentes. Às vezes, a admiração dos fãs extrapola eventos anuais e passa a fazer parte do cotidiano deles. Um exemplo é Tony Alleyne, um fã londrino que transformou seu apartamento em uma réplica da Enterprise. Identificados com nerds ou geeks, os trekkies já fazem parte do universo bem-humorado da cultura pop. Os fãs da sitcom “The Big Bang Theory” que o digam. |