“Diário de bordo: data estelar 1513.1. Nossa posição, órbita do planeta M-113. A bordo da Enterprise, Sr. Spock, temporariamente no comando. No planeta, ruínas de uma civilização antiga e desaparecida há muito tempo. O médico da nave McCoy, o tripulante Darnell e eu somos teletransportados à superfície do planeta. Nossa missão: exames médicos de rotina no arqueólogo Robert Crater e em sua esposa Nancy. Seria rotina, não fosse o fato de que Nancy Crater é uma mulher importante no passado do Dr. McCoy.”

A narração do capitão James Kirk, interpretado pelo ator William Shatner, abria em 8 de setembro de 1966 o episódio “Sal da Terra” (The Man Trap), o primeiro da série “Star Trek” (Jornada nas Estrelas) a ir ao ar. Nas primeiras cenas, já apareceram alguns dos elementos que virariam ícones do seriado. A começar pelo teletransporte, uma máquina que desmaterializa um ser ou um objeto em um ponto e envia suas configurações atômicas para outro local, onde ele é reconstituído. Também há o famoso diário de bordo do capitão,que cria uma metáfora entre as missões da Enterprise e as mais desafiadoras aventuras marítimas da humanidade (a própria espaçonave tem o mesmo nome de um famoso porta-aviões norte-americano usado na 2.ª Guerra Mundial). E, como não poderia deixar de ser, já se revela o estilo sedutor e galanteador do capitão Kirk, que perduraria nas três temporadas e também nos filmes para o cinema.
Mas “Star Trek” não virou um fenômeno só por conta do sex appeal do capitão Kirk ou das inovações tecnológicas que previa. Ela se tornou uma série cultuada graças a abordagem humanista que fez de temas essenciais como o descobrimento e a interação com novos mundos e novas culturas e a uma crença iluminista na ciência, na tecnologia e na democracia. A odisséia da Enterprise por galáxias desconhecidas pode ser vista como uma metáfora da aventura humana ao longo dos séculos no nosso próprio planeta, principalmente na era das grandes navegações e de descobrimentos de novos mundos, povos e culturas. Só que em “Star Trek” essa aventura traz os mais nobres ideais da modernidade, como a luta pela democracia contra a tirania e a da razão e do conhecimento científico contra a intolerância e os fanatismos místicos.
Graças a essa visão progressista do futuro, a série incluiu no comando da Enterprise uma mulher negra, a especialista em comunicação Uhura, e um russo, o navegador Checov. Numa época em que vivia-se o auge da Guerra Fria, entre Estados Unidos e União Soviética, e em que o Movimento pelos Direitos Civis e o feminismo ainda lutavam contra a desigualdade e o preconceito contra os negros e as mulheres, “Star Trek” rompeu paradigmas e levou para a TV uma visão avançada de um futuro da humanidade igualitário e pacífico. Seus episódios representaram a saga do homem em compreender o que é a natureza humana, isto é, o que define a humanidade em comparação e contraste com outras espécies e civilizações. E para fazer isso, a Enterprise só poderia reunir nossos melhores valores na visão de seus criadores, expressos nos ideais do humanismo e da modernidade.
Para desenvolver essas idéias, os episódios misturavam drama, ação e comicidade. Os emotivos terráqueos capitão Kirk e o Dr. Leonard McCoy, médico da Enterprise, junto com o oficial de ciências Spock, um vulcaniano com orelhas pontudas e um comportamento absolutamente lógico, formavam o trio central das aventuras, à frente de uma tripulação multiétnica e com várias mulheres bonitas em postos-chave. Equipados com suas armas portáteis phaser, que podem vaporizar um ser ou apenas deixá-lo inconsciente, e seus tricorders, equipamento científico que analisa qualquer coisa animada ou inanimada, as jornadas dos tripulantes da United Star Ship (Nave Estelar da União) Enterprise pelo espaço sideral deram uma nova dimensão à ficção científica.
![]() Reprodução / Star Trek The Original Series, Season Two Sr. Spock e sua famosa saudação: "vida longa e próspera" |
Entre os mais marcantes personagens da ficção científica está o Sr. Spock, um ser meio vulcaniano, meio humano. Marcante não só pelo seu visual com orelhas e sobrancelhas pontudas, mas também pela sua maneira radicalmente lógica de pensar e agir. Ele seria a realização do perfeito pensador racional, fruto dos ideais iluministas da superioridade da razão e da ciência. Antes de ser o braço direito do capitão Kirk no comando da Enterprise e o elemento central da resolução de boa parte dos problemas enfrentados na missão da espaçonave, Spock recebeu, durante sua infância e adolescência em Vulcano, um rigoroso treinamento em lógica pura, que se sobrepôs ao seu lado emocional humano. Uma de suas marcas registradas é a saudação que faz com as mãos e significa “vida longa e próspera”. |