Seinfeld: a diversão em não ser um bom samaritano

Em 14 de maio de 1998, uma audiência de 75 milhões de espectadores nos Estados Unidos (um quarto da população do país na época) assistiu ao último episódio de “Seinfeld”. Foi o capítulo final em nove temporadas de um humor sofisticado, irreverente, que driblou os dogmas do politicamente correto e transformou em ícones da vida moderna protagonistas cínicos, egoístas, narcisistas e que não se preocuparam em amadurecer ou em nos ensinar coisa alguma. Em “Seinfeld” não há uma “evolução” moral dos personagens nem uma “mensagem” ou “conclusão” a ser transmitida ao final de cada episódio.

Seinfeld
Reprodução / www.sonycanal.com.br
Cosmo Kramer o vizinho excêntrico
e cheio de esquemas de Jerry Seinfeld


Jerry, George, Kramer e Elaine

Jerry Seinfeld (Jerry Seinfeld): no papel dele mesmo faz um comediante que ganha a vida com apresentações de “stand-up comedy”. Solteiro, arrumadinho, fã do Supeman, mora sozinho em um apartamento em Manhattan e quase sempre tem uma nova namorada em cada episódio. É normalmente a voz da razão do quarteto de protagonistas.

George Costanza (Jason Alexander): neurótico, baixinho, gordinho, careca, desempregado e morando com os pais, ele é o protótipo do perdedor. É o melhor amigo de Jerry desde a escola. Mentiroso, desonesto e invejoso, tinha como sonho ser arquiteto ou biólogo marinho. O melhor que conseguiu foi trabalhar para o New York Yankees, seu time do coração, após um ataque de sinceridade em uma entrevista.

Cosmo Kramer (Michael Richards): sem nenhum meio aparente de se manter, ele é o vizinho excêntrico de Jerry. Cheio de trejeitos, manias e esquemas é um boa vida. Vive tendo idéias para ganhar dinheiro fácil, como uma pizzaria onde o cliente faz a própria pizza ou um perfume com cheiro de praia chamado “The Ocean”. Sempre aparece sem avisar no apartamento de Jerry.

Elaine Benes (Julia Louis-Dreyfus): a ex-namorada de Jerry completa o quarteto central de protagonistas. Atraente, ela leva uma vida amorosa cheia de desapontamentos e está freqüentemente irritada com algo ou com alguém. Tem uma compulsão em ser sincera, o que invariavelmente lhe rende problemas. Admitiu para Jerry que fingiu orgasmos em todas as relações que manteve com ele durante o namoro.

Simbólico do espírito que fez o sucesso da série – “The Finale”, o último capítulo, sarcasticamente reuniu vários personagens que ao longo dos anos se sentiram trapaceados, enganados ou desprezados pelo quarteto nova-iorquino. Eles aparecem para testemunhar sobre as maldades que Jerry, George, Kramer e Elaine teriam cometido durante as nove temporadas. Isso porque os quatro estão sendo julgados numa pequena cidade em Massachusetts por terem feito gozações enquanto assistiam impassivelmente a um morador local ter seu carro roubado por uma gangue. Comportando-se como “típicos nova-iorquinos”, eles teriam desrespeitado a recente “Lei do Bom Samaritano”.

Desde que seu primeiro episódio foi ao ar em julho de 1989, “Seinfeld” mostrou-se uma inusitada comédia. Ela explorou situações banais do cotidiano para revelar um jeito não-heróico de ser e uma ética que ressaltou o egoísmo, o narcisismo e a alienação dos personagens centrais. Para fazer isso usou piadas inteligentes, pontuadas com humor negro, que brincaram com a linguagem, ironizaram preconceitos, ridicularizaram nossas neuroses. Sem moral da história, sem glamour, sem lições de solidariedade, sem romantismos, “Seinfeld” mostrou seus protagonistas como os opostos do bom mocismo. Assim, o capítulo final é uma espécie de julgamento de todos esses “anti-valores” que a série desfilou ao longo da década de 90.

De uma forma irônica, Jerry, George, Elaine e Kramer são boas pessoas. Suas falhas ou fraquezas, seus aparentes egoísmos e indiferenças, sua amoralidade e imaturidade não carregam intenções de prejudicar os outros. Mas, sarcasticamente a série não poderia terminar sem mostrar que numa sociedade que cobra engajamentos e aparências, eles só poderiam acabar condenados à prisão por não terem sido exemplos de bons samaritanos. Mas foi graças a isso que eles se divertiram e continuam a divertir milhões de pessoas ao redor do mundo.

Outros personagens de "Seinfeld"

Newman (Wayne Knight): o carteiro que vive no mesmo prédio de Jerry e Kramer é odiado pelo primeiro e amigo do segundo. É o parceiro mais freqüente dos esquemas de Kramer para fazer dinheiro fácil, como quando usaram o caminhão do Serviço Postal para levarem latas recicláveis para outro Estado que pagava mais por elas.

Frank Costanza (Jerry Stiller) e Estelle Costanza (Estelle Harris): ao conhecer os pais de George Costanza é possível identificar porque ele cresceu tão neurótico e perdedor. Os dois mantêm uma relação de amor e ódio um pelo outro, o que constantemente resulta em alguma humilhação para o filho. Tanto o irascível e excêntrico Frank quanto a mandona e desagradável Estelle têm um carinho especial por Kramer.

Jacopo Peterman (John O'Hurley): conhecido como J. Peterman, ele é o esnobe e excêntrico dono da editora que publica o catálogo de modas em que Elaine trabalha.

David Puddy (Patrick Warburton): apesar de constantes rompimentos e voltas, é o namorado mais duradouro de Elaine (ele aparece com freqüência a partir da sexta temporada). Suas habilidades sexuais parecem ser o que faz Elaine não largá-lo. Suas paixões são os sanduíches de rosbife do Arby’s e o time de hóquei do New Jersey Devils.

Jackie Chiles (Phil Morris): ele é o oportunista e espetaculoso advogado que sempre aparece em algum esquema de Kramer para processar seja a indústria do tabaco ou alguma herdeira milionária. Chiles parece ser uma paródia do famoso advogado negro Johnnie Cochran que liderou a defesa de O.J. Simpson.