Samba tipo exportação: de Ary Barroso à bossa nova

Quando Getúlio Vargas assumiu o poder na década de 30, seu governo estabeleceu uma política de valorização e promoção da arte “genuinamente” brasileira. Tinha com isso o objetivo de aproximação com as camadas populares cada vez mais representativas em termos políticos no país. Política que estava alinhada ainda com o sonho nacional das elites brasileiras de projetar uma imagem “civilizada” do país no exterior.

Ary Barroso
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Ary Barroso compôs "Aquarela do Brasil", um samba-exaltação
que atendia às diretrizes do Estado Novo. Até hoje ela ainda
é a canção brasileira mais executada no exterior


Assim o samba, que estava em evidência na maior e mais moderna cidade da época, o Rio de Janeiro, foi escolhido pelo Estado Novo como a expressão cultural da nacionalidade brasileira. Desde que não fizesse apologia à malandragem e à vida dos morros, e ressaltasse os melhores aspectos do país e da sociedade brasileira. É nesse contexto que surge o samba-exaltação, que tem como seu maior símbolo a música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, gravada em 1939. Caracterizada por um nacionalismo exagerado e com um arranjo musical típico das big-bands norte-americanas, a música exalta as qualidades do Brasil “mestiço”, elevando-o à categoria de paraíso na Terra:

Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Carmen Miranda
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O sucesso da cantora Carmen Miranda popularizou o samba nos Estados Unidos, mas os mais puristas a acusaram de americanizar o gênero

Ainda em 1939, Carmen Miranda, a cantora de rádio mais popular do país na época, viajou aos Estados Unidos com a tarefa de lançar o samba como representante da moderna música brasileira. Vestida de baiana estilizada, cantou na Broadway “O Que é Que a Baiana Tem”, de Dorival Caymmi. Fez um enorme sucesso em shows, no cinema e no teatro, tornando-se símbolo da “exótica” cultura brasileira. Tamanha repercussão, no entanto, preocupou aqueles que achavam que o samba, música "desqualificada feita por negros", não estava à altura de representar a imagem do país no exterior. Um Brasil que queria parecer moderno, civilizado e, sobretudo, branco. Contudo também não agradou os defensores do samba que acusaram a cantora de americanizar o autêntico ritmo brasileiro.

Preocupação com a influência estrangeira que se intensificou nos anos seguintes. Durante toda a década de 40 e início do anos 50, a cultura em todo o mundo sentiu o impacto do crescimento da indústria cultural. Fenômeno que possibilitou uma "troca" de influências entre os mais variados ritmos então divulgados através dos meios de comunicação. Com o samba, não foi diferente. Influenciado pelo bolero, ganhou uma versão mais lenta e melodiosa, com letras melancólicas e dramáticas, o samba-canção. Interpretado por cantores com voz grave e performance teatral, como Dolores Duran, Cauby Peixoto, Noel Rosa, Lindomar Castilho, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, entre outros, o ritmo apelidado de música de “fossa” dominou o cenário musical brasileiro no período.


João Gilberto
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João Gilberto ajudou a internacionalizar o samba ao misturá-lo com jazz
e inventar a bossa nova na virada dos anos 50 para os 60

O samba-canção seria suplantado pelo surgimento da bossa nova, em 1958. Gênero musical influenciado pelo jazz, criado por músicos da elite carioca, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e o baiano João Gilberto. Proposta de modernização do samba que finalmente concretizou o sonho brasileiro de ver a música nacional reconhecida e valorizada no exterior. Embora, internamente, tenha sido acusada de ser uma versão piorada da música americana e de ter ousado inovar o samba, música que define a “verdadeira” identidade brasileira.

Porém o reinado da bossa nova no Brasil também durou pouco. Com o golpe militar de 1964, a radicalização política influenciou toda a produção artística nacional. Fato que fez com que alguns músicos iniciassem a fase social do gênero com temas mais “sérios” e engajados. Mudança que promoveu uma aproximação desse grupo com sambistas do morro, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Ketti e Clementina de Jesus, tornando-os conhecidos do grande público. Movimento que foi extinto com o surgimento da MPB, a Música Popular Brasileira, que passou a agregar os mais diferentes gêneros musicais brasileiros, inclusive o samba, ritmo que tem influenciado as composições de grandes nomes da música popular nacional, como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso.