No início do século 20 a elite do Rio de Janeiro vivia um verdadeiro sonho de modernidade. Com a industrialização e o desenvolvimento da então maior cidade do país, iniciou-se um processo de urbanização a fim de transformá-la em uma metrópole capaz de fazer frente às grandes capitais européias. Com isso “deslocou-se” do centro da cidade para a periferia e os morros a população negra que migrou no final do século anterior em busca de trabalho.
![]() Reprodução Neta de escravos, Clementina de Jesus iniciou sua carreira artística aos 63 anos de idade para se tornar uma das mais importantes sambistas do país |
O samba é basicamente um gênero musical de compasso binário e ritmo sincopado, intimamente ligado a danças folclóricas afro-brasileiras, desenvolvidas em torno de batucadas, onde há o predomínio da percussão, e acompanhada por palmas. O samba urbano tradicional, gênero que nasceu no Rio de Janeiro e se consagrou no país e no exterior, fez uma aproximação das polirritmias afro-brasileiras com a linguagem musical da moda na época. Composto por versos declamatórios e estribilhos, esse samba urbano carioca tem sua sonoridade criada principalmente por meio de tamborim, violão, pandeiro, cavaquinho, cuíca, surdo e caixas. |
O chefe de folia / Pelo telefone / Manda avisar /
Que com alegria / Não se questione / Para se brincar /
Ai, ai, ai / É deixar mágoas pra trás / É rapaz /
Ai, ai ai, / Fica triste se és capaz / E verás /
Tomara que tu apanhes / Pra não tornar a fazer isso /
Tirar amores dos outros / Depois fazer seu feitiço /
Ai, ai, rolinha / Sinhô, sinhô / Se embaraçou /
Sinhô, sinhô / É que a avezinha /
Sinhô, sinhô / Nunca sambou

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Cartola
foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira,
a verde-rosa. Ele também escolheu as cores da escola e compôs "Chega de
Demanda", o primeiro samba mangueirense. Além disso, suas composições
fizeram sucesso nos anos 30 nas vozes de Francisco Alves, Silvio Caldas
e Carmen Miranda
Mas a versão que mais fez sucesso foi a que circulava de boca em boca e usava o tom crítico e divertido característico das composições feitas nas casas das tias da periferia. Desmoralizava a polícia, que ao mesmo tempo reprimia e apreciava tanto o samba quanto o jogo ilegal no Rio de Janeiro:
O chefe de polícia / Pelo telefone / Mandou avisar /
Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar... /
Ai, ai, ai / O chefe gosta da roleta / Ô maninha /
Ai, ai ai / Ninguém mais fica forreta /
É maninha / Chefe Aurelino /
Sinhô, sinhô / É bom menino /
Sinhô, sinhô / Pra se jogar /
Sinhô, sinhô / De todo jeito /
Sinhô, sinhô / O bacará /
Sinhô, sinhô / O pinguelim /
Sinhô, sinhô / Tudo é assim
Iniciou-se assim o processo de popularização do ritmo para além da comunidade negra, o que abriu caminho para que os principais compositores da geração de pioneiros do samba, como Sinhô (José Barbosa da Silva), Caninha (José Luís Morais), Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e João da Baiana (João Machado Guedes), entre outros, ganhassem projeção nos anos 20.
Mas foi somente com o surgimento da primeira escola de samba nos anos 30, a Deixa Falar, do bairro Estácio, que o samba ganhou os contornos que o caracterizam como gênero musical. Na época, os músicos da escola, liderados por Ismael Silva, perceberam que o samba amaxixado da casa das tias não servia para acompanhar os desfiles. Então alteraram seu ritmo, dando origem ao samba urbano carioca como é conhecido até hoje.

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Adoniran Barbosa foi um dos expoentes do samba paulista,
autor de "clássicos" como "Trem das Onze" e "Saudosa Maloca"
O novo estilo logo despertou o interesse do mercado musical que passou a divulgá-lo pelo rádio e pelo cinema (meios de comunicação que ganhavam enorme importância na época) por todo o país. Assim o samba, que até então tinha um público restrito às camadas mais pobres da população, chegou também aos ouvidos da classe média. Nomes como Noel Rosa, Francisco Alves, Ary Barroso, Custódio Mesquita e Carmen Miranda passaram a compor e interpretar o novo ritmo. Com isso, o tornaram mais “palatável” e “civilizado” a fim de ser consumido pela crescente classe média brasileira.