Os primeiros passos do samba

No início do século 20 a elite do Rio de Janeiro vivia um verdadeiro sonho de modernidade. Com a industrialização e o desenvolvimento da então maior cidade do país, iniciou-se um processo de urbanização a fim de transformá-la em uma metrópole capaz de fazer frente às grandes capitais européias. Com isso “deslocou-se” do centro da cidade para a periferia e os morros a população negra que migrou no final do século anterior em busca de trabalho.


Clementina de Jesus
Reprodução
Neta de escravos, Clementina de Jesus iniciou sua carreira artística aos 63 anos de idade para se tornar uma das mais importantes sambistas do país


O som do samba
O samba é basicamente um gênero musical de compasso binário e ritmo sincopado, intimamente ligado a danças folclóricas afro-brasileiras, desenvolvidas em torno de batucadas, onde há o predomínio da percussão, e acompanhada por palmas. O samba urbano tradicional, gênero que nasceu no Rio de Janeiro e se consagrou no país e no exterior, fez uma aproximação das polirritmias afro-brasileiras com a linguagem musical da moda na época. Composto por versos declamatórios e estribilhos, esse samba urbano carioca tem sua sonoridade criada principalmente por meio de tamborim, violão, pandeiro, cavaquinho, cuíca, surdo e caixas.

Enquanto as elites curtiam a cultura européia nas imponentes e então “higienizadas” regiões centrais da cidade, manifestações culturais da tradição africana sobreviviam entre os moradores das periferias e dos morros. Em várias casas aconteciam eventos organizados por “tias” baianas. Nelas, gente da comunidade, boêmios e músicos se reuniam para compor, tocar, cantar e dançar. Essas manifestações ficaram conhecidas como "samba" na época.

Prática que se tornou cada vez mais popular, apesar das freqüentes incursões policiais a fim de coibir as “bárbaras” atividades culturais populares. As músicas que embalavam estes animados eventos eram uma mistura de ritmos trazidos da Bahia com aqueles que circulavam no Rio de Janeiro, como maxixe, lundu, xote e polca. Em uma dessas festas, em 1916, nasceu “Pelo Telefone”, composição gravada pelo músico Donga, considerada oficialmente o primeiro samba moderno brasileiro. Embora, segundo estudiosos, a música fosse mais um maxixe do que um samba como é conhecido hoje.


Beneficiado por uma nascente indústria fonográfica e pelo surgimento de um mercado consumidor de música no país, esse samba amaxixado se tornou o primeiro sucesso do novo gênero musical. Mas houve um outro fator que contribuiu para a sua popularidade. Circulavam naquela época duas versões da música, a que foi gravada e outra considerada a versão original. A letra oficial falava de uma ingênua diversão:


O chefe de folia / Pelo telefone / Manda avisar /
Que com alegria / Não se questione / Para se brincar /
Ai, ai, ai / É deixar mágoas pra trás / É rapaz /
Ai, ai ai, / Fica triste se és capaz / E verás /
Tomara que tu apanhes / Pra não tornar a fazer isso /
Tirar amores dos outros / Depois fazer seu feitiço /
Ai, ai, rolinha / Sinhô, sinhô / Se embaraçou /
Sinhô, sinhô / É que a avezinha /
Sinhô, sinhô / Nunca sambou


Cartola mangueira
Reprodução
Cartola foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, a verde-rosa. Ele também escolheu as cores da escola e compôs "Chega de Demanda", o primeiro samba mangueirense. Além disso, suas composições fizeram sucesso nos anos 30 nas vozes de Francisco Alves, Silvio Caldas e Carmen Miranda

 

Mas a versão que mais fez sucesso foi a que circulava de boca em boca e usava o tom crítico e divertido característico das composições feitas nas casas das tias da periferia. Desmoralizava a polícia, que ao mesmo tempo reprimia e apreciava tanto o samba quanto o jogo ilegal no Rio de Janeiro:

O chefe de polícia / Pelo telefone / Mandou avisar /
Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar... /
Ai, ai, ai / O chefe gosta da roleta / Ô maninha /
Ai, ai ai / Ninguém mais fica forreta /
É maninha / Chefe Aurelino /
Sinhô, sinhô / É bom menino /
Sinhô, sinhô / Pra se jogar /
Sinhô, sinhô / De todo jeito /
Sinhô, sinhô / O bacará /
Sinhô, sinhô / O pinguelim /
Sinhô, sinhô / Tudo é assim


Iniciou-se assim o processo de popularização do ritmo para além da comunidade negra, o que abriu caminho para que os principais compositores da geração de pioneiros do samba, como Sinhô (José Barbosa da Silva), Caninha (José Luís Morais), Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana) e João da Baiana (João Machado Guedes), entre outros, ganhassem projeção nos anos 20.

Mas foi somente com o surgimento da primeira escola de samba nos anos 30, a Deixa Falar, do bairro Estácio, que o samba ganhou os contornos que o caracterizam como gênero musical. Na época, os músicos da escola, liderados por Ismael Silva, perceberam que o samba amaxixado da casa das tias não servia para acompanhar os desfiles. Então alteraram seu ritmo, dando origem ao samba urbano carioca como é conhecido até hoje.


Adoniran Barbosa
Reprodução
Adoniran Barbosa foi um dos expoentes do samba paulista,
autor de "clássicos" como "Trem das Onze" e "Saudosa Maloca"


O novo estilo logo despertou o interesse do mercado musical que passou a divulgá-lo pelo rádio e pelo cinema (meios de comunicação que ganhavam enorme importância na época) por todo o país. Assim o samba, que até então tinha um público restrito às camadas mais pobres da população, chegou também aos ouvidos da classe média. Nomes como Noel Rosa, Francisco Alves, Ary Barroso, Custódio Mesquita e Carmen Miranda passaram a compor e interpretar o novo ritmo. Com isso, o tornaram mais “palatável” e “civilizado” a fim de ser consumido pela crescente classe média brasileira.