Para o rock, os anos 80 começaram em 1977. Em agosto daquele ano morreu o rei do rock Elvis Presley. Foi o ano também em que o The Police gravou seu primeiro compacto, os Sex Pistols lançaram “Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols”, seu único álbum na carreira, e bandas como Talking Heads, Blondie, Elvis Costello & the Attractions, Siouxsie and The Banshees e B-52’s já estavam tocando e gravando. Enquanto a febre da discoteca tomava conta das paradas, o rock dos anos 80 estava sendo engendrado em clubes alternativos como o CBGB, de Nova Iorque (EUA), e em gravadoras independentes como a Factory Records, de Manchester (Inglaterra). Apesar de que a estética dos anos 80 estava sendo forjada desde 1977, na virada da década dois fatos anunciaram definitivamente que os anos 70 acabaram: o fim do Led Zeppelin, após a morte do seu baterista, e o assassinato de John Lennon em Nova Iorque.
![]() Capa do álbum The B-52's (1979) |
O ambiente social da década de 80 caracterizou-se por políticas conservadoras e um ultraliberalismo econômico, decorrentes em grande parte dos governos do ex-ator Ronald Reagan, na presidência dos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher, como primeira-ministra do Reino Unido, que se mantiveram no poder durante praticamente toda a década. Além disso, um avanço moralista em reação ao consumo de drogas e às liberalidades sexuais tomou conta do planeta. Outra característica histórica dos anos 80 foi a intensificação da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que levaria ao colapso do modelo socialista soviético ao final da década. Mas, enquanto emergiam essas visões conservadoras, a busca por mais liberdades e justiça social também crescia, com o fortalecimento de movimentos sociais e a mobilização da juventude. Diferentemente da década de 60, a juventude dos anos 80 não apostava mais no modelo comunal, como dos hippies, nem numa rígida filiação ideológico-partidária. Ela era mais individualista e pragmática.
Essas características refletiriam no rock. Após o abalo artístico e comportamental provocado pelo punk, o rock se reinventou nos anos 80 de forma mais fragmentada. A década do pós-punk assistiu ao surgimento de uma diversidade de estilos nunca antes vista no gênero. Estilos que misturavam desde o rock’n’roll dos anos 50 até a música eletrônica e a disco music do final dos anos 70. Essa diversidade de influências levou ao surgimento de um rock mais próximo do pop, mais dançante, mas também mais melancólico e nostálgico.
O primeiro movimento pós-punk a fazer sucesso nos anos 80 foi a new wave. Herdeira de diversos aspectos do punk nova-iorquino, ela era uma música mais melódica e com letras inteligíveis, que trazia influências da discoteca e do reggae e incluía recursos como sintetizador e bateria eletrônica. Com um visual que lembrava o dos mods dos anos 60, só que mais colorido, a new wave é uma das características marcantes da década. Ela é um dos exemplos mais bem sucedidos da aproximação do rock com a música pop. Dançante e sem propor rupturas radicais, ela teve seus expoentes em bandas como The Police, Talking Heads, Blondie, Elvis Costello and The Attractions e B52’s, que alcançaram os topos das paradas de sucesso principalmente na primeira metade da década.
![]() Paralell Lines, álbum do grupo Blondie, lançado em 1978 |
Diferente do bom humor muitas vezes intelectualizado da new wave e em oposição ao som alegre e descompromissado da música de discoteca, surge nos anos 80 o rock gótico ou dark. Canções cheias de angústia, introspectivas e com tons sombrios refletiam uma visão niilista do mundo que os grupos como Siouxsie and The Banshees, Sisters of Mercy, Bauhaus e The Cure traziam. O rock gótico não somente foi um grande sucesso nos anos 80 como sobreviveu como um subgênero do rock nas décadas seguintes.
Exemplo da diversidade que o rock dos anos 80 apresentou foi o heavy metal, que se subdividiu desde o estilo mais ameno e comercial de Bon Jovi até o thrash metal de Mettalica, sem esquecer dos seguidores do estilo mais clássico como AC/DC, Van Halen e Aerosmith. Outra vertente do rock oitentista foi o new romantics ou new pop. Derivado da new wave, ele fez canções baseadas em sintetizadores, dançantes e letras românticas. Os rocks new romantics de Duran Duran, Culture Club e Soft Cell se inseriram completamente no universo da canção pop, que àquela altura já havia se tornado um megagênero da canção popular.
Conseguir misturar melancolia e músicas dançantes foi uma das características importantes dos anos 80. Bandas que surgiram na cidade de Manchester (Inglaterra) como Joy Division e New Order, em torno da gravadora independente Factory Records, e outras como Depeche Mode e Pet Shop Boys faziam o uso de sintetizadores e baterias eletrônicas para transformar letras melancólicas em sucessos nas pistas de dança. De Manchester surgiu também os Smiths, uma banda fundamental para o pop a partir dos anos 80, liderada por Steven Morrissey, que revelou-se um dos mais importantes letristas da história do rock.
Mas além de dançante, o rock também foi engajado nos anos 80. Os irlandeses do U2 começaram a fazer sucesso atrás de sucesso com seus rocks que cantavam sobre questões sociais e políticas da Irlanda do Norte, que serviram de paradigma para várias outras situações de opressão no mundo. Nos Estados Unidos, Bruce Spingsteen, com seu rock que falava do cotidiano das classes baixas e dos trabalhadores norte-americanos, e o R.E.M, com um rock universitário intelectualizado, com ácida crítica social e comportamental, emergiram com uma música pós-punk sem o uso de sintetizadores e sem aderir a adocicada canção pop.
Durante a década de 80, mesmo com a sua aproximação do estilo pop, o rock manteve-se como a trilha sonora e um ponto de referência para manifestações políticas dos jovens. A fome na África (Live Aid,em 1985), a libertação de presos políticos (A Conspiracy of Hope Concerts, em 1986) e os direitos humanos (Humans Rights Now, em 1988) são alguns dos movimentos em que artistas e grupos de rock se engajaram e ajudaram na divulgação e no debate dessas questões.
![]() O álbum The Joshua Tree, do U2, foi lançado em 1987 |
Com dezenas de subgêneros e em boa parte absorvido pelo universo da canção pop, o rock caminhou para o final dos anos 80 como o gênero da canção popular mais bem sucedido no mundo inteiro. Além de ter se tornado tão diversificado a ponto de agradar diferentes gostos, do dançante ao introspectivo, do descompromissado ao engajado, do ultra-romântico ao irônico, o rock ganhou amplitude nos primeiros anos da Music Television (MTV) e mostrou que continuava a ser uma forma de expressão dos anseios da juventude. Só que agora, ele dividia o espaço e o sucesso no universo da canção popular com a ascendente música eletrônica, o rap e as canções pop sob o reinado de Michael Jackson e Madonna.
O marco final da década de 80 ocorreu em 9 de novembro de 1989. Após 28 anos de existência, caiu o Muro de Berlim, construído para separar a então Alemanha Oriental da Ocidental, simbolizando o colapso do modelo socialista implantado no Leste Europeu e na União Soviética e o final da Guerra Fria. Era a “vitória” do modelo político, econômico e social do Ocidente capitaneado pelos Estados Unidos. Enquanto o mundo assistia ao apagar das luzes dos anos 80, o rock da década de 90 já estava sendo preparado. De um lado na cidade de Manchester (Inglaterra), que já havia revelado para o mundo os Smiths, Joy Division e New Order, começou, em torno do Hacienda Club, uma cena musical regada a drogas sintéticas, que tinha como destaques os Happy Mondays e os Stone Roses. Do outro lado do Atlântico, um grupo de garagem de Seattle (EUA) lançou por uma gravadora independente um álbum que mudaria completamente a trajetória do rock.