Anos 60, a reinvenção do rock pelos súditos da rainha

No início dos anos 60, o rock vivia sua segunda decadência. Elvis, ao voltar do serviço militar, já não era mais tão perigoso como antes. Sinal disso foi sua aparição no programa televisivo de Frank Sinatra, o mesmo Sinatra que havia afirmado em 1958 que o rock era a mais brutal, feia, degenerada e viciada forma de expressão que ele já tinha tido o desprazer de ouvir. Mesmo a trajetória de rebeldes desgarrados como Jerry Lee Lewis, Little Richard e Chuck Berry, que faziam em suas vidas muito do que de mais insano cantavam, não era suficiente para manter o rock’n’roll e o rockabilly pulsando.

Beatles 1969
Abbey Road, dos Beatles, foi lançado em 1969

Até então o rock tinha seus principais nomes vindo dos Estados Unidos. Nos anos 60 houve uma significativa mudança. A juventude do Reino Unido, principalmente da Inglaterra, começou a ser fortemente influenciada pelas raízes do rock que ouviam. O blues do Delta do Mississipi e de Chicago passou a ser referência para os adolescentes britânicos que queriam fazer rock. Além disso, a forma e o conteúdo do rock’n’roll estavam esgotados e a juventude ansiava por uma forma mais criativa e inovadora para se expressar musicalmente. Foi nesse contexto que o rock renasceu. E os responsáveis por isso foram principalmente os ingleses dos Beatles e dos Rolling Stones.

Em 1963, com o lançamento do primeiro disco dos Beatles, com canções como “I Want to Hold Your Hand” e “She Loves You” que terminaram aquele ano como as primeiras das paradas no Reino Unido, o rock estava novamente em ascensão. Mas enquanto os Beatles, em sua primeira fase, faziam uma sonoridade inventiva, mas com letras mais ingênuas e um visual bem comportado, os Rolling Stones, mesmo sem uma produção criativa muito original no começo, ganhavam destaque em função de sua postura e atitudes rebeldes contra o estabilishment.

Do outro lado do Atlântico, no berço do rock, uma nova reinvenção do gênero acontecia quase que simultaneamente. Um rock mais engajado, crítico e com forte influência do folk (música popular tradicional e folclórica) e do country começou a ganhar forma e iria ter em Bob Dylan sua maior expressão. Dylan foi um divisor de águas na história do rock e com sua capacidade artística e intelectual levou o gênero a um novo patamar. Com ele, o rock deixou a adolescência e ingressou na sua fase adulta. Mas, apesar de Bob Dylan, os Estados Unidos assistiriam a partir de 1964 à invasão britânica, com os sucessos que Beatles e Rolling Stones fariam por lá, com os primeiros lugares nas paradas de sucesso, shows com fãs ensandecidas e aparições polêmicas nos programas de televisão.

Na década de 60, o rock se reinventou diversas vezes, na beatlemania, no rock rhythm’n’blues britânico dos Rolling Stones, The Yardbirds e Cream, no rock engajado de Bob Dylan e no psicodélico de Grateful Dead e Jimi Hendrix. Para cada uma dessas fases, a juventude roqueira adotou um comportamento e uma moda própria. Logo no começo da década, junto com a onda rhythm’n’blues que atinge o rock britânico, surgiram em Londres os mods, mais um movimento constituído basicamente por jovens da classe operária. Influenciados pelo estilo dos jovens negros norte-americanos das grandes cidades, usavam ternos, dirigiam motonetas e se opunham aos rockers (o estilo de vida mod foi retratado no filme “Quadrophenia”, de 1979, dirigido por Franc Roddam).

A segunda metade dos anos 60 é caracterizada pelo avanço da contracultura e advento dos hippies. O movimento hippie, que foi influenciado e influenciou o rock psicodélico (estilo em que predominam os sons altos da guitarra e do cantor e com temas e letras ligadas ao uso de drogas), caracterizou-se por um estilo de vida comunal que rejeitava os valores dominantes e pregava o amor livre, o uso de drogas e a liberdade total. O movimento teve forte conotação política e simpatia da Nova Esquerda, principalmente nos Estados Unidos. A segunda fase da carreira dos Beatles a partir de 1967 os aproxima da onda psicodélica e também do movimento hippie. É bom destacar que os hippies surgiram numa época em que as condições econômicas e os mecanismos de amparo social do Estado possibilitavam a existência de adolescentes e jovens adultos voluntariamente desempregados.

Há no decorrer dos anos 60 um engajamento do rock em questões sociais, políticas e comportamentais importantes, como exemplifica a canção “Street Fight Man”, dos Rolling Stones, inspirada nos movimentos políticos da juventude da França aos Estados Unidos. Como não poderia deixar de ser o gênero estava na cabeça e na voz dos jovens que protestaram contra a Guerra do Vietnã, na luta pelos direitos civis e em outras campanhas libertárias naqueles efervescentes anos.

No final dos anos 60, o rock havia ganhado não só as ruas como também os estádios, os parques e as fazendas. A era dos festivais e shows ao ar livre teve seu ápice nos três dias de concertos e celebração hippie de Woodstok em agosto de 69. Mas em dezembro daquele ano, o concerto dos Rolling Stones em Altamont (Califórnia) marcou o fim da era hippie da “paz e amor”. Uma das facções da juventude roqueira dos anos 60, os motoqueiros dos “Hell’s Angels”, que faziam a segurança privada do concerto em Altamont, não pensaram muito para matar um jovem negro de 18 anos que sacou um revólver e apontou para o palco durante a apresentação dos Stones. Os anos 60 tinham definitivamente acabado.

No campo musical, durante a década, ampliou-se de tal forma a diversidade de influências no rock e deste em outros gêneros que o resultado é a formação de um megagênero chamado de música pop. A canção pop iria se consolidar ao longo das décadas seguintes como uma versão adocicada, mais suave do rock, na sonoridade, nas letras e na atitude dos seus artistas e fãs. Mas, enquanto funcionava como a principal fonte da canção pop, o rock caminhava para sua extinção. No final dos anos 60, emerge um rock sofisticado, com tendências “eruditas”. Além disso, os principais grupos de rock tornaram-se megalomaníacos e o gênero distanciou-se de seu espírito inicial. A década seguinte veria a morte e a ressurreição do rock de forma radical.