As canções de Raul Seixas nas mais diferentes fases de sua carreira revelam predominantemente letras carregadas de pensamentos inspirados em preceitos do Anarquismo. Outras características marcantes de sua obra são a contundente ironia e o esoterismo. Um dos primeiros sucessos e até hoje uma de suas mais famosas canções é “Sociedade Alternativa”, composta em parceria com Paulo Coelho, e lançada originalmente em 1974 no álbum “Gita” (a canção é ainda um dos hits entre os brasileiros que participam dos Fóruns Sociais Mundiais, em função de seu refrão Viva! /Viva!/ Viva a Sociedade Alternativa! lembrar o lema “um outro mundo é possível”). Na canção, há uma mistura de elementos que remetem ao anarquismo e ao místico. A ênfase no caráter libertário e anárquico é feita em versos que exploram o bom humor:
Se eu quero e você quer /Tomar banho de chapéu /
Ou esperar Papai Noel / Ou discutir Carlos Gardel /
Então vá! /Faz o que tu queres / Pois é tudo / Da Lei! Da Lei!
Nesses versos, observa-se que aparentemente na sociedade alternativa cantada por Raul não haveria a necessidades de leis, pois os desejos individuais poderiam ser exercidos livremente. Também não importaria se essa vontade fosse lógica ou não (tomar banho de chapéu), real ou não (esperar Papai Noel) ou relevante ou não (discutir Carlos Gardel). Mas essa liberdade utópica teria de ser consensual. Ela só poderia ser exercida, conforme mostra o primeiro verso (Se eu quero e você quer), se um outro alguém também quiser. Mas quem seria o outro ou esse “eu” na sociedade alternativa? Não há uma resposta evidente nos versos, daí subentendesse que poderiam ser os outros membros dessa comunidade. Mas a última estrofe associa esse discurso libertário a um possível "líder" e à sua doutrina esotérica:
O número 666 / Chama-se Aleister Crowley /
Viva! Viva! / Viva! a Sociedade Alternativa /
Faz o que tu queres / Há de ser tudo da lei /
Viva! Viva! / Viva! A Sociedade Alternativa /
A Lei de Thelema / Viva! Viva! /Viva a Sociedade Alternativa /
A Lei do forte / Essa é a nossa lei / E a alegria do mundo /
Viva! Viva! / Viva A Sociedade Alternativa.
A vida e as idéias do ocultista britânico Aleister Crowley influenciaram significativamente tanto Raul Seixas quanto Paulo Coelho. Crowley fundou o que seus seguidores acreditam ser a religião ou a filosofia da Nova Era. Chamada de Thelema (palavra grega que significa vontade), ela prega que o seu seguidor identifique e passe a obedecer a própria vontade, desde que essa vontade esteja obrigatoriamente em harmonia com “a Vontade que tudo rege”, segundo Crowley. Thelema possui um “Livro das Leis” que prevê, entre outras coisas, uma disciplina absoluta aos iniciados para que os caprichos não sejam confundidos com a “Vontade”. Assim, o que aparenta ser um hino de uma utopia absolutamente libertária traz um discurso com elementos não muito diferentes daqueles de outras narrativas religiosas ou dogmáticas.
![]() O álbum "Novo Aeon" (1975) traz sucessos como "Rock do Diabo" e "Tente Outra Vez" |
Mas há outra face das criações artísticas de Raul Seixas. Aquela em que estão suas canções bem humoradas, despidas de qualquer “espiritualidade”, e que não deixam de lado uma ironia crítica em relação ao mundo a sua volta. São dessa espécie canções como “Al Capone”, “Rock do Diabo”, “Mosca na Sopa” e “Aluga-se”, entre outras. Em “Aluga-se”, lançada em 1980 no álbum “Abre-Te Sésamo” e composta em parceria com Cláudio Roberto, Raul canta sobre a situação que o Brasil vivia na virada dos anos 70 para os 80. No plano econômico, o país estava afundado em uma dívida externa que parecia impagável e, no artístico, a música internacional dominava as paradas de sucesso. É sobre essa falta de perspectivas que Raul canta e apresenta uma solução com muita ironia como mostram os versos iniciais:
Solução pro nosso povo / Eu vou dá /
Negócio bom assim / Ninguém nunca viu /
Tá tudo pronto aqui / É só vim pegar /
A solução é alugar o Brasil!... /
Nós não vamo paga nada / Nós não vamo paga nada /
É tudo free! / Tá na hora agora é free /
Vamo embora / Dá lugar pros gringo entrar /
Esse imóvel tá prá alugar
Em “Teddy Boy, Rock e Brilhantina”, lançada em compacto em 1972, a letra pode ser interpretada como sarcástica em relação aos hippies e a todos os seguidores da filosofia do “paz e amor”, e como uma leve cutucada também nos compositores e cantores mineiros que no começo dos anos 70 formaram o Clube da Esquina, com uma sonoridade com fortes influências do jazz e dos ritmos regionais mineiros:
Eu quero avacalhar com toda a turma da esquina /
Com meu cabelo cheio de brilhantina /
Dançando o rock ao som de Elvis`n Roll /
Eu vivo num clima brabo, cheio de violência /
E você faz sinal de paz e clemência /
E ainda me diz que é um bicho muito "Underground"
Sua crítica ao estilo de vida e às crenças dos hippies prossegue em outros versos com a mesma contundência:
Hey bicho! Onde é que vai com essa flor no cabelo? /
Com esse sorriso de paz e desespero? / Olhe pro lado e você vai entender
Raul Seixas fez um rock típico brasileiro, único. Talvez sem a mesma inventividade e ousadia de Os Mutantes, por exemplo, mas com uma irreverência e uma atitude de inconformismo típica das raízes do rock’n’roll, que ele tanto admirava. Além disso, boa parte de sua produção artística carrega uma aura mística, herança de uma vertente da contracultura dos anos 60 e 70.