Nos anos 70, Raul Seixas era visto como o guru e o porta-voz de uma geração de brasileiros adeptos da contracultura, movimento que se originou com os escritores beatniks nos anos 50 nos Estados Unidos e teve seu auge na década de 60 com os hippies. A contracultura representava a oposição da cultura jovem ao estilo de vida da classe média e sua insatisfação e descrença nos valores tradicionais, como educação, carreira profissional, dependência tecnológica e moralidade, entre outros. Anárquico e romântico, o movimento teve diversos ícones no Brasil dos anos 60 e 70, entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Os Novos Baianos.
![]() "Krig-Há, bandolo!" foi considerado um dos melhores álbuns de música brasileira, segundo a edição nacional da revista Rolling Stone |
Na sua fase áurea na década de 70, além de um fiel e engajado representante da contracultura, Raul Seixas assumiu para muitos dos seus fãs brasileiros o mesmo papel que Bob Dylan teve na década anterior para a juventude do mundo inteiro. Só que as “canções de protesto” de Raul se caracterizavam por uma proximidade com o pensamento anarquista, um grau acentuado de sarcasmo e ironia e muito misticismo. Seu rock incorporou elementos nacionais como o cordel (poesia popular narrativa) e o baião ou a música sertaneja original (canções populares baseadas no som de violas e acordeão), o que levou alguns críticos a o classificarem de “rock brega”.
Sua trajetória profissional começou em 1967, em Salvador (BA), com a formação do grupo Raulzito e Os Panteras. Fã de Elvis Presley, seu início de carreira é com covers de sucessos do rock internacional e nacional. Na Bahia, ele e sua banda eram vistos como a expressão local do movimento da Jovem Guarda e é dessa época sua aproximação com o cantor Jerry Adriani, um dos ídolos do movimento e que seria uma figura importante na carreira do artista. Raul começou a se tornar popular a partir de 1972, quando teve duas de suas músicas classificadas na sétima edição do Festival Internacional da Canção, promovido pela Rede Globo de Televisão.
Mas foi em 1973 que ele alcançou o reconhecimento e projeção nacional com o lançamento do álbum “Krig-Há, bandolo!”(expressão que significa "Cuidado, aí vem o inimigo", na linguagem de Tarzan), que traz suas primeiras parcerias com Paulo Coelho e uma seqüência de sucessos como “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Al Capone” e “Ouro de Tolo”. Entre 1973 e 1974, ele apresenta os fundamentos do que chamou de “Sociedade Alternativa”, inspirada nos pensamentos do “bruxo” britânico Aleister Crowley (1875-1947) e também na New Utopy Alternative Society de John Lennon. Apesar de não ter uma atitude de engajamento político, as idéias contestadoras de Raul e sua intenção de fundar a Cidade das Estrelas, uma comunidade alternativa no interior de Minas Gerais, foram suficientes para que o governo militar o prendesse. O Brasil vivia no começo dos anos 70 a fase mais repressiva da ditadura (1964-1985) e os militares não tinham a menor tolerância para qualquer manifestação libertária. Junto com Paulo Coelho, e as respectivas esposas, Raul se exilou nos Estados Unidos, onde permaneceu até o ano seguinte.
Apesar de ser um dos ídolos dos neo-hippies, por conta da similaridade de idéias e estilo de vida, Raul Seixas era acidamente crítico em relação ao movimento. Suas letras compostas nos anos 70 ironizam o comportamento “paz e amor”, a passividade da utopia hippie e a facilidade com que o movimento foi domesticado. Mas a proposta da Sociedade Alternativa, de Raul e Paulo Coelho, em muito coincidia com os ideais hippies e parece ter sido uma tentativa de ressuscitar, com algumas variações, uma etapa superada da contracultura.
De 1974 a 1976, Raul lança os álbuns “Gita”, “Novo Aeon” e “Há 10 Mil Anos Atrás” que trazem grande parte dos seus sucessos que se tornaram clássicos do rock brasileiro, como “O Trem das 7”, “Sociedade Alternativa”, “Gita”, “Rock do Diabo”, “Novo Aeon” e “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”. Após essa série de álbuns, a produção de Raul fica irregular e o artista começa a enfrentar os problemas de saúde e alcoolismo que levariam a sua morte no final da década seguinte. Em 1980, ele lança o álbum “Abre-Te Sésamo” que volta a colocá-lo em evidência e no qual se destacam as canções “Aluga-se”, um rock pesado carregado de uma fina ironia sobre a incapacidade de tornarmos o Brasil um país melhor, e “Rock das Aranhas”, um divertido rock com uma letra de duplo sentido.
O rock de Raul Seixas foi classificado como brega por alguns críticos em função de algumas peculiaridades do trabalho do artista. Entre elas, estão a inserção de vários elementos da musicalidade popular nordestina, as letras satíricas e a atmosfera mística e esotérica que criava em algumas canções, próxima de uma espiritualidade e de um messianismo exacerbados.
Nos anos 80, o artista enfrentou o ostracismo ao mesmo tempo em que virava uma lenda viva do rock nacional. Seus problemas com álcool comprometiam seus shows e ele perdia sua credibilidade junto aos empresários e às gravadoras. Simultaneamente, surgia um novo rock brasileiro, mais pop e renovado, que teve como expoentes Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, entre outros. Esses fatores que fizeram com que Raul Seixas praticamente sumisse das paradas e dos meios de comunicação parecem também ter reforçado sua imagem como um mito e um guru para os jovens que se identificavam com os ideais da contracultura dos anos 60 e 70. Seu renascimento se deu em 1988 numa parceria com Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, um dos grupos de sucesso da geração 80 do rock brasileiro, que resultou numa série de shows pelo Brasil e no álbum “A Panela do Diabo”, lançado dois dias antes da morte de Raul.
Quando morreu em 21 de agosto de 1989, ele já era um mito do rock brasileiro. Sua obra, além de virar hino de uma juventude “rebelde”, mas saudosa da contracultura dos anos 60 e 70, construiu uma linguagem peculiar dentro da cultura pop brasileira. Em dezembro de 2007, para justificar uma de suas mudanças de opinião, o presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva declarou-se “uma metamorfose ambulante”, numa alusão a uma das mais famosas canções do compositor. Uma apropriação que o anarquista Raul Seixas não imaginava (ou não merecesse).