Anarquia no Reino Unido: o punk conquista o mundo

I am an antichrist
I am an anarchist
Don’t know what I want but
I know how to get it
I wanna destroy the passer by cos i
I wanna be anarchy !

(Anarchy in the UK, Sex Pistols)

Na Inglaterra, o Sex Pistols surge no final de 1975, em um momento de crise econômica, política e social do país. Os altos índices de desemprego, a decadência do estado de bem estar social britânico, uma crise política que desaguaria alguns anos à frente na eleição de um governo ultraconservador, a desilusão dos jovens, principalmente os da classe operária, criavam uma atmosfera tão ou mais carregada do que a existente na Nova Iorque berço dos Ramones.

Sex Pistols
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O Sex Pistols despertou a ira dos conservadores de plantão.
Nada poderia ser melhor para aumentar a admiração dos
jovens às atitudes anti-sociais e à imagem anti-fashion do grupo.


Mais focado na atitude do que na sonoridade, conforme a idéia do seu mentor, o Sex Pistols ganhou popularidade a partir de suas apresentações caóticas e principalmente por conta da atenção da imprensa ao condenar as atitudes chocantes e a baixa qualidade artística do grupo. Isso foi o suficiente para projetar os Pistols que, com suas canções que ultrajavam os principais valores da sociedade britânica, inspiraram o surgimento imediato de várias novas bandas, como The Buzzcocks, The Clash e Generation X.

A popularidade e as notícias em torno do Sex Pistols projetaram o punk para o resto do planeta. Muitos jovens das periferias dos grandes centros urbanos, de Tóquio a São Paulo, identificaram-se com a sonoridade e a atitude punk. E foi justamente o estilo mais durão e classe operária que predominava no punk britânico que ganhou o mundo. Com camisetas rasgadas, roupas de couro, tachinhas, alfinetes de segurança, coturnos, cabelos com cortes rentes e coloridos, ou ao estilo moicano, o punk construiu um visual chocante, zombeteiro, autêntico, mas principalmente acessível economicamente aos seus adeptos. No comportamento, a agressividade dava o tom das pistas de dança às atitudes de protesto nas ruas.

The Clash
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The Clash foi uma das melhores e mais conhecidas
bandas do movimento punk. Sua sonoridade inclui
ritmos jamaicanos como o dub e o reggae.

 


Enquanto nos Estados Unidos despontou uma nova geração de bandas punks mais sofisticadas como os Talking Heads e Blondie, no Reino Unido surgiu o punk político, engajado e musicalmente mais sofisticado do The Clash. A banda inovou ao misturar ritmos jamaicanos, como o dub e o reggae, e, assim como o Sex Pistols e os Ramones, compôs alguns dos maiores sucessos do punk. O Clash engajou-se também em campanhas políticas internacionais como o Rock Against Racism (Rock contra o Racismo) e em defesa da Revolução Sandinista na Nicarágua.

O auge da fúria punk durou meia década, de 1974 a 1979. No começo dos anos 80, o movimento tinha sido em grande parte assimilado pelo sistema a que se opunha. Seu visual virou item de butiques, as bandas eram fonte de lucro da indústria fonográfica e sua agressividade verbal e artística já não chocava tanto. Mas, por ter surgido como o resultado de uma reação à elitização do rock, à atitude romântica inócua dos hippies e inspirado por temas dos submundos urbanos e marginais, o punk cumpriu seu papel de decretar o fim de uma estética e fazer surgir outra radicalmente diferente. Ele permitiu o renascimento do rock e, embora niilista, mostrou saídas para a cultura jovem nas décadas seguintes.

Plebe Rude
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Entre as várias bandas brasileiras que surgiram na onda do
movimento punk, a Plebe Rude foi uma das que se destacaram

 

"O Começo do Fim do Mundo", no Brasil

O punk brasileiro tornou-se conhecido com a realização do festival “O Começo do Fim do Mundo”, em 1982, no SESC Pompéia em São Paulo. A reunião de bandas barulhentas e hordas de jovens punks vindo da periferia paulistana foi um choque para os segmentos mais conservadores. O choque foi tal que a vizinhança assustada chamou a polícia, que não pensou duas vezes em invadir o evento e prender duas dúzias de punks. O festival mostrou ao país que desde o final dos anos 70 começava a fervilhar nas periferias urbanas uma manifestação artística e comportamental jovem que expressava a descrença e a insatisfação com o que a sociedade brasileira lhes oferecia. Retratados preconceituosamente e de forma estereotipada pelos meios de comunicação, o punk brasileiro encontrou apoio na voz do poeta Carlos Drummond de Andrade ao comentar que “se tudo está errado por aí, e nós estamos convencidos disso, uma postura punk para nos salvar do abismo tem razão de ser”. O punk brasileiro rendeu algumas das mais importantes bandas dos anos 80 como Ira!, Plebe Rude, Ratos do Porão, Garotos Podres, Inocentes, além de influenciar outras tantas, como Legião Urbana e Capital Inicial.