A origem vanguardista do punk

No circuito artístico nova-iorquino da virada dos anos 60 para os 70 começaram a fervilhar idéias que seriam as sementes do movimento punk. Muito da agitação boêmia e vanguardista girava em torno de Andy Warhol, que de expoente da Pop Arte transformara-se também em idealizador e realizador de produções artísticas de vanguarda e relacionadas à cultura pop. Uma das incursões de Warhol foi patrocinar a banda Velvet Underground. Vestidos normalmente de preto, com letras sobre sadomasoquismo, criminalidade, prostituição, drogas e homossexualidade, entre outros temas do submundo das grandes cidades, uma sonoridade experimental e um cantor (Lou Reed) que não era nenhuma virtuose, o Velvet Underground virou influência para uma série de novas bandas. Em um momento cultural dominado pela filosofia flower power hippie, a atitude soturna e niilista do Velvet Underground era revolucionária.

Punk Magazine
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O fanzine Punk Magazine não só fez a cobertura da cena
underground que surgia em Nova Iorque e Londres como
também foi fundamental para dar o nome ao movimento


Iggy Pop & The Stooges, Patti Smith, MC5 e New York Dolls foram alguns dos grupos que surgiram na trilha do Velvet. As canções, as performances e o minimalismo do grupo incentivavam vários adolescentes a montarem suas bandas e cantarem sobre um submundo urbano e um cotidiano que até então não aparecia nas canções jovens. Assim, uma nova geração de bandas, que se apresentavam principalmente nos clubes noturnos undergrounds de Nova Iorque, surgiu para subverter os padrões artísticos da música pop, com uma sonoridade mais crua, acelerada e agressiva. Nesse cenário destacaram-se os shows e a movimentação cultural em torno principalmente do Max’s Kansas City e do CBGB, clubes nova-iorquinos que abriram espaço para o rock underground que surgia. Em torno desses lugares, além dos novos grupos e sua nova sonoridade, circulavam também personalidades da vanguarda artística, como os artistas plásticos Willem de Kooning e Roy Lichtenstein, o poeta beat Gregory Corso, a atriz Jane Fonda, o escritor René Ricard e vários músicos como Mick Jagger, David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed e Gram Parsons, além do múltiplo Andy Warhol, em torno de quem muitas dessas personalidades giravam.

A passagem dessa movimentação cultural de vanguarda para o caos punk ocorreu quando os jovens freqüentadores do Max’s e depois do CBGB perceberam que poderiam fazer o que seus novos ídolos estavam fazendo no palco. Em vez de letras sofisticadas e “papo cabeça” do rock progressivo, entraram refrões simples, sujos, rebeldes, pornográficos e cotidianos. Em vez de um virtuosismo musical que beirava a complexidade da música erudita dos monstros sagrados do heavy metal e do progressivo, vieram os acordes simples, rústicos e vibrantes. No lugar das superproduções dos supergrupos, veio a produção independente dos discos, shows caóticos e anárquicos, sem recursos especiais e com visuais andróginos e sadomasoquistas. O grupo New York Dolls foi um dos percussores e uma das mais influentes bandas nesse processo. Inspirados pelos Dolls, vieram, Johnny Thunder & The Heartbreakers, Television e os Ramones, responsáveis pelo nascimento do punk como uma nova forma de fazer rock.

O punk passou a conquistar novos admiradores nos Estados Unidos, com ares de uma ruptura estética e ideológica com a cultura dominante na primeira metade dos anos 70. Caminhou para se firmar como gênero independente, alternativo e boêmio no cenário cultural norte-americano. Enquanto isso acontecia, o ex-agente dos New York Dolls, Malcolm McLaren, levou a idéia punk para o outro lado do Atlântico. Na Inglaterra, ele ganhou ares mais plebeus e se consolidou como um amplo movimento cultural, que ia dos estudantes das escolas de arte aos jovens da classe operária. No centro dessa transformação estava o Sex Pistols, banda criada por McLarem e responsável por fazer o punk conquistar o mundo.

Bob Cuspe
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O personagem Bob Cuspe, criado por Angeli, caracterizava de forma divertida o niilismo e o sarcasmo dos punks, numa versão brasileira

 

A arte de onde nasceu o punk

O que parece caótico, violento e rudimentar é o resultado de influências artísticas sofisticadas. A essência do punk coincide com pensamentos de alguns dos mais importantes movimentos artísticos do século 19 e 20.

Para começar, uma de suas filosofias fundamentais, a do “faça você mesmo” (do it yourself), prevê que qualquer um pode se tornar um músico, compositor ou cantor para expressar sua arte através da estética punk, já que ela é básica o suficiente para dispensar qualquer virtuosismo ou talento especial. Tal pensamento não foi uma novidade punk. Uma das vertentes do Realismo, liderada pelo pintor francês Gustave Courbet (1819-1877), explorou um século antes a idéia de que qualquer um poderia se tornar um pintor e que a rotina do homem comum, do trabalhador, mereceria ser abordada como tema artístico.

Outro pensamento que alimentava o punk era o “sem futuro” (no future). Idéia que em muito remete ao dadaísmo, movimento artístico do começo do século 20, que trouxe uma visão fragmentada, cética, experimental e pessimista do mundo. Características que coincidiam com a poética, a atitude e o visual do punk. Uma das apropriações mais evidentes do dadaísmo pelo punk foi o estilo gráfico do artista John Heartfield que usava a colagem de fragmentos de imagens para compor uma nova obra.

Outra influência do punk veio ironicamente da geração de poetas e escritores beatniks, que havia influenciado o “pacifista” movimento hippie. Assim como as obras beatniks, a poética punk narrava o cotidiano nas ruas das grandes cidades, a vida de tipos marginais, de experiências degradantes, violentas e promíscuas.