Poesia, música e a era digital

A sonoridade é um elemento fundamental para a composição poética. Valendo-se do ritmo, da cadência dos versos, da musicalidade das palavras, a poesia sempre soa como música, mesmo quando apenas lida em silêncio ou declamada sem qualquer acompanhamento instrumental.

No Brasil, essa afinidade entre música e poesia torna-se explícita quando analisamos a obra e a trajetória de Vinícius de Moraes, o “poetinha”, que circulou livre e apaixonadamente entre as duas modalidades artísticas. Em entrevista concedida a Clarice Lispector, Vinícius explica a forte presença da música em sua vida, mesmo antes da chegada da poesia: “Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.”

Enfrentando o preconceito dos críticos da época, que não viam com bons olhos o gosto de Vinícius pela música popular e, conseqüentemente, pela popularização de sua poesia, o poeta tornou-se querido por platéias no mundo todo, encantadas por suas composições cheias de ritmo e de uma poesia genuinamente brasileira.

Renato Russo
Foto: Agência Estado
Renato Russo, compositor e vocalista da Legião Urbana,
transformou versos de Camões em canção pop

Além de poetas que fazem música e músicos que fazem poesia, encontramos outra forma de casamento entre música e poesia nas releituras musicais de textos da tradição poética. Renato Russo, por exemplo, tinha um grande talento para revitalizar e popularizar poemas antigos em suas canções, como fez com o célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver” (1595), de Luís Vaz de Camões (1524-1580), considerado o maior poeta da língua portuguesa:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


A poesia na era digital

O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que o mais importante para quem quer compreender a poesia, mais que ler, analisar ou escrever, é desfrutar da poesia, é “sorvê-la”. Para ele, a poesia é, na realidade, “uma paixão e um prazer”, algo que está muito além dos livros e das próprias palavras: “Passamos à poesia; passamos à vida. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia.”

Esse inspirado conceito que Borges tem da poesia, de que ela se encontra além dos livros, na própria vida, nos ajuda a entender o porquê da poesia permanecer a cada dia mais viva nos meios e nas formas de comunicação mais modernos, entre os quais a Internet se destaca, sem dúvida, pela interatividade, pela riqueza de recursos expressivos e pela facilidade de acesso para autores e leitores.

Além dos sites, blogs e grupos de discussão sobre poesia, a Internet abriu novas possibilidades de criação poética, culminando num tipo próprio de poesia, com linguagem específica: a poesia digital. Baseada na combinação de recursos gráficos, áudio, vídeo e escrita, incluindo textos combinatórios e uma série de tecnologias aplicadas em livre experimentação criativa, a poesia digital, ou ciberpoesia, ainda não cabe em qualquer definição.

Nascida junto da Internet e em processo de auto-transformação constante, essa nova forma de fazer poesia promete desenvolver-se tão vasta e criativamente quanto seu meio, alcançando formas e caminhos ainda imprevisíveis. Por enquanto, a única certeza que fica é a de que a chama da poesia continuará ardendo, dentro ou fora dos livros, nas páginas virtuais e na vida.