Numa primavera grega, floresce a poesia

Para o escritor argentino Jorge Luis Borges, não há como dar à poesia uma definição precisa, “tal como não podemos definir o gosto do café, a cor vermelha ou amarela nem o significado da raiva, do amor, do ódio, do pôr-do-sol ou do nosso amor pela pátria. Essas coisas estão tão entranhadas em nós que só podem ser expressas por aqueles símbolos comuns que partilhamos. Por que precisaríamos então de outras palavras?”

Grécia
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É da Grécia antiga o primeiro registro oficial da poesia

Sem perder tempo tentando definir ou rotular a experiência poética, podemos olhar para o caminho percorrido pela poesia ao longo da história, uma trajetória que revela muito sobre os percursos da própria civilização. Reconstituir as origens da poesia é um trabalho quase arqueológico, já que, acredita-se, suas raízes se encontram na pré-história, no período compreendido entre 3.000 e 3.500 a.C., quando o homem confeccionava utensílios e armas de cobre.

Mas o primeiro registro oficial que se tem de poesia, como expressão artística, remete à primavera de 534 a.C, na Grécia antiga, quando são encenadas as primeiras tragédias em Atenas, no Festival de Dionísio. Antes disso, a poesia era parte das tradições dos povos antigos em suas reuniões diante dos oráculos, sempre no início de cada primavera, quando cantavam, dançavam, gritavam seus lamentos durante rituais em que uma sacerdotisa declamava suas profecias. Nesses rituais pagãos, a dança, o canto e a poesia oral eram as formas que os homens adotavam para se aproximar dos deuses e tentar, por meio da linguagem poética - considerada pura e livre dos vícios da fala cotidiana -, compreender os fenômenos da natureza, os desígnios divinos, a vida e a morte.

Os maiores poemas épicos (épica, do grego epos – canto ou narrativa) da Grécia antiga são a "Ilíada" e a "Odisséia", de Homero, poeta que supõe-se ter vivido nos anos 700 a.C. Cego, ele cantava seus poemas na corte, para reis e nobres. Tanto a "Ilíada" quanto a "Odisséia" codificam todos os grandes mitos gregos, narrando feitos heróicos em tom eloqüente, adequado à fala em voz alta. Na tradição clássica, não somente Homero, mas também Ésquilo, Sófocles, Eurípides e todos os poetas do período cantavam ou declamavam seus poemas em público, em performances que atraíam um grande número de pessoas e emocionavam as platéias com o ritmo musical dos versos e a exposição de temas mitológicos, voltados para as profundas questões humanas.

Esse caráter performático da poesia gerou a dramaturgia, o teatro, quando, além do próprio poeta declamando seu texto, passam a dividir a cena outros atores, mascarados, que enriqueciam a apresentação dos textos poéticos por meio da interpretação.

Com a adoção da lira no acompanhamento musical das performances de poesia épica, nasce a poesia lírica, dando espaço ao surgimento de novas variedades poéticas, como as canções, as odes, os epitáfios, as baladas, as elegias e outras formas que dariam origem, posteriormente, ao soneto e ao madrigal. Um dos traços inovadores da poesia lírica, em relação à épica, é a maior liberdade que o poeta tem na definição do número de sílabas dos versos.

A primeira poetisa de que se tem notícia é Safo (séc. 6 a.C.), cuja obra, dedicada às musas, apresenta características líricas e compreende odes, elegias, hinos e epitalâmios. Outros poetas conhecidos da antigüidade clássica são Píndaro, um dos primeiros grandes autores de odes, e Simônides de Ceos, que dedicou-se principalmente aos epitáfios, poemas criados como forma de homenagem aos heróis mortos.

Da poesia lírica derivam também a poesia bucólica, cujo maior representante é Teócrito (séc. 3 a.C.), e a poesia dramática, uma fusão da lírica e da épica (as narrativas são épicas, ou seja, objetivas, mas os narradores são líricos, atores de suas próprias emoções), que encontra em Eurípedes, Ésquilo e Sófocles suas grandes expressões.

A cultura grega foi o modelo primordial seguido pelos romanos no desenvolvimento da arte latina. Como expoentes da poesia latina na Antigüidade, podemos citar Virgílio, consagrado pela autoria da “Eneida”, grande poema épico; Ovídio, poeta de “As Metamorfoses”, poema com traços épicos e líricos; além de Horácio, Pérsio e Juvenal, que dedicaram-se a outro importante estilo poético da época, a sátira.