Do bem humorado ao lírico, o Pato Fu tem feito canções que revelam que há no pop nacional sinais de inventividade e modernidade. No álbum “Televisão de Cachorro” (1998), que projetou a banda nacionalmente, o sucesso “Antes que Seja Tarde”, composta por John, Fernanda Takai e Tarcísio Moura, é uma balada romântica que destaca os timbres da voz da vocalista e apresenta uma inteligente construção poética como demonstram seus versos:
Olha, não sou daqui
Me diga onde estou
Não há tempo não há nada
Que me faça ser quem sou
Mas sem parar pra pensar
Sigo estradas,sigo pistas pra me achar
Nunca sei o que se passa
Com as manias do lugar
Porque sempre parto antes que comece a gostar
De ser igual, qualquer um
Me sentir mais uma peça no final
Cometendo um erro bobo, decimal
Na verdade continuo sob a mesma condição
Distraindo a verdade, enganando o coração
Pelas minhas trilhas você perde a direção
Não há placa nem pessoas informando aonde vão
Penso outra vez estou sem meus amigos
E retomo a porta aberta dos perigos
“O Mundo Não Mudou”, também do álbum “Televisão de Cachorro”, cantada por John, mostra uma sonoridade e uma poética em muito influenciadas pelo rock dos anos 80, mas carregada de uma certa ironia em relação ao comportamento e a atitude da juventude:
Leio livros complicados
Faço teses, faço juras
Mas não, oh não
O mundo não mudou
Pego em armas, dou meu sangue
Jogo bombas e granadas
Mas não, oh não
O mundo não mudou
Vou pra rua, vou pra praça
Grito hinos, grito frases
Mas não, oh não
O mundo não mudou
Fico em casa, cheiro incenso
Canto mantras, ligo chakras
Mas não, oh não
O mundo não mudou
Vou pra festa, queimo plantas
Tomo todas, tomo tudo
Mas não, oh não
O mundo não mudou
Outro exemplo do bom humor da banda é a canção “Nunca Diga”, composta pro Frank Jorge. Trata-se de um rock com uma letra que remete aos temas e ao estilo das composições da vanguarda paulista dos anos 80, feitas por grupos como Premeditando o Breque (Premê):
Querido nunca diga que eu tenho mau gosto
E saiba que o belo da vida ainda está pra nascer
Querido por favor olhe bem em meu rosto
E tente enxergar o que os outros não conseguem ver
Fui lhe mostrar um disco que eu comprei
De um cantor que eu sempre gostei
Mas você não me deu atenção
E voltarei pra casa pelo mesmo caminho
Escutarei o meu disco sozinha
Dentro do meu quarto na escuridão
Querido nunca diga que eu tenho mau gosto
E saiba que o belo da vida ainda está pra nascer
A crítica aos maus usos e costumes do país também está presente nas composições do grupo, mas sempre destacando o uso das ironias e uma visão mais bem humorada. Exemplo disso são os versos da canção “Licitação”, cantados por John sobre uma sonoridade que começa meio carnavalesca e se transforma num heavy metal:
Quando essa joça ficar pronta
Quero ver quem que dá conta
De contar como se conta o dinheirão que vai pro saco
Fazer pirâmide, jardim, não é problema
Bota o nome do Ayrton Senna
Põe na entrada do buraco
Vamos errar português
Vamos eleger um bundão
Vamos votar em quem roubou mas fez
Pena de morte para os linchadores, ou não?
Já que a policia não faz nada
O menininho da calçada
De dia dou moedinha
De noite eu dou porrada
Vamos inventar uma nova dancinha
Sucatear o samba e maltratar o carnaval
Vamos dar um jeito de arrumar a vida
Então vamos morrer de uma vez, tá legal?
Coliseu penelaqui!
![]() Agência Estado Fernanda Takai em show do Pato Fu |
Outro sucesso da banda, “Canção Prá Você Viver Mais” mostra a sensibilidade do grupo para transformar um tema delicado em um dos maiores sucessos da década de 90. A canção foi escrita para o pai de Fernanda Takai que ficou doente e morreu em 1997. Seus versos constroem uma declaração lírica sobre os sentimentos em relação a se perder alguém que se ame:
Nunca pensei um dia chegar
E te ouvi dizer:
Não é por mal
Mas vou te fazer chorar
Hoje vou te fazer chorar
Não tenho muito tempo
Tenho medo de ser um só
Tenho medo de ser só um
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Deixei que tudo desaparecesse
E perto do fim
Não pude mais encontrar
E o amor ainda estava lá
O amor ainda estava lá
Exemplo da modernidade das canções do Pato Fu, é a composição “Woo!”, do álbum “Daqui pro Futuro”. A batida eletrônica dita o ritmo dançante da canção e seu refrão reflete uma visão subversiva e bem humorada do mundo ao nosso redor:
Faça algo mágico e faça agora
Ahaaa
Faça isso rápido e sem demora
Ahaaa
Siga a sua lógica indo embora
Ahaaa
Faça algo cínico e dê o fora
Ahaaa
Quando algo sai do seu controle
o mundo volta a respirar
A confusão pode ser doce
A perfeição pode matar....ah.....
Sinta seu espírito ir à forra
Ahaaa
Tranque esse cubículo por fora
Ahaaa
Veja como é ótimo, não tenha medo
Ahaaa
Conte o seu angélico segredo
Ahaaa
O Pato Fu tem mostrado sensibilidade para construir letras inteligentes e uni-las a sonoridades inovadoras. Seus versos têm explorado a capacidade do grupo em apresentar lirismo, bom humor a uma visão crítica e diferenciada do mundo. Associados a uma sonoridade sempre inventiva, que incluí o uso de samplers, sequencers, outros recursos eletrônicos e sons experimentais, o resultado são composições que dão vitalidade e apontam caminhos para o futuro do pop-rock brasileiro.