As influências dos ritmos jamaicanos e da new wave britânica caíram como uma luva na poética das canções dos Paralamas do Sucesso, notadamente no início da carreira, quando a banda explorava uma visão de mundo bem-humorada, mesmo ao tratar de temas mais românticos ou de crítica social. A primeira estrofe do primeiro sucesso do grupo, “Vital e Sua Moto”, mostra bem isso:
Vital andava a pé e achava que assim estava mal
De um ônibus pro outro aquilo para ele era o fim
Conselho de seu pai: "Motocicleta é perigoso, Vital.
É duro de negar, filho, mas isto dói bem mais em mim."
Mas Vital comprou a moto e passou a se sentir total
Vital e sua moto, mas que união feliz
Corria e viajava era sensacional
A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis
“Selvagem?”, o disco de inéditas com maior vendagem dos Paralamas, traz canções que se destacaram no álbum lançado em 1986, e na carreira do grupo até então, pois marcam uma primeira mudança na direção da sonoridade dos Paralamas, que se distanciam da new wave e se aproximam dos gêneros mais brasileiros, apesar da ainda forte influência dos ritmos jamaicanos. Também o engajamento das letras em questões políticas e sociais fica evidente, como nas composições “Selvagem”, “Teerã” e “Alagados”. Na canção “Selvagem” há uma crítica ao ambiente político, social e moral do país nos primeiros anos após o fim da ditadura militar. A canção, que tem um andamento reggae mas em um tom mais pesado, procura denunciar em seus versos os resquícios do espírito autoritário e moralista deixados pela ditadura, como a violência policial e a censura que o governo Sarney impôs ao polêmico filme “Je Vous Salue Marie”, do diretor francês Jean-Luc Godard, no qual o cineasta mostra sua visão sobre a Virgem Maria:
A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cassetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter tudo
Em seu lugar
O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard
A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar
Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar
Já a canção “Alagados”, apesar de denunciar condições precárias de vida e o drama da sobrevivência das áreas mais pobres do Rio de Janeiro, apresenta um certo tom de conformidade em seus versos finais, reforçado por uma sonoridade um tanto festiva para o tipo de crítica feita:
Todo dia
O sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo quem já não queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade
Que tem braços abertos num cartão-postal
Com os punhos fechados da vida real
Lhes nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de tevê
A arte é de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
![]() Foto: Maurício Valladares João Barone, Herbert Vianna e Bi Ribeiro |
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída
Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado
Por um par se sapatos, um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição
Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão
Rádio FM e televisão
Os Paralamas têm provado com os seus sucessos mais românticos uma capacidade de cantar os relacionamentos amorosos ou as paixões que nem sempre dão certo. Às vezes de forma mais divertida como é o caso da canção “Cinema Mudo”:
Amor sem palavras
Cinema mudo
Não falo nada
Você sabe tudo
A noite chega
Me dá um toque
Melancolia não dá ibope
Eu tenho que aprender
Tudo que sinto por você
Eu tenho que aprender num desses
Seriados de TV
Outras, com uma poética mais melancólica, como nos versos de “Quase Um Segundo”:
Eu queria ver no escuro do mundo
Onde está tudo que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores
E as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim
Será que você ainda pensa
Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Que não me deixa em paz
Quais são as cores
E as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
No cenário da canção pop nacional, Os Paralamas construíram um repertório invejável de sucessos. O grupo soube transitar pela vasta gama de estilos que a canção pop possibilita, partindo de canções influenciadas pelos ritmos jamaicanos e pela new wave até uma sonoridade mais pesada, mas sempre procurando misturar a isso tudo elementos bem brasileiros.