A trajetória musical de Ozzy: do Black Sabbath ao OzzFest

O ocultismo e a miséria humana foram temas explorados nas canções de Ozzy Osbourne desde o início de sua carreira como músico profissional. Para um católico inglês nascido em 1948, que passou uma infância com dificuldades econômicas e uma adolescência delinqüente, a opção de fazer um rock pesado diferente da moda psicodélica, que tomava conta do Reino Unido no final dos anos 60, foi uma estratégia bem sucedida.

Álbum Black Sabbath
Ozzy Osbourne na capa do álbum "Black Sabbath" (1970)

Apesar de rejeitar a admiração e o envolvimento com seguidores de rituais satânicos, Ozzy encontrou no místico e no lado negro da vida desde os primórdios um diferencial que se tornou marca registrada de sua carreira. Além do nome do Black Sabbath ter sido inspirado em um filme de terror homônimo estrelado por Boris Karloff, o lançamento do primeiro disco do grupo, repleto de canções com temáticas góticas, aconteceu numa sexta-feira em 13 de fevereiro de 1970.

Essa imagem ligada ao bizarro e a coisas sobrenaturais, que chocavam pais e autoridades, associada a uma nova sonoridade pesada e ao mesmo tempo melódica, funcionou para conquistar adolescentes rebeldes ao redor do mundo. Os temas, as atitudes e os sons do Black Sabbath liderado por Ozzy foram profanações que funcionaram como gritos de protesto jovem, parte do processo de contestação dos valores e das tradições do mundo adulto.

Ainda em 1970, o Black Sabbath lançou seu segundo álbum que trouxe as canções “Paranoid” e “Iron Man”, dois sucessos que viraram clássicos do rock e ajudaram o grupo a tornar-se um dos mais populares no cenário do heavy metal, ao lado de Led Zeppelin, Judas Priest e Deep Purple. O álbum levou também a banda a conquistar o tão desejado mercado norte-americano. Daí em diante foi uma sucessão de mais oito discos lançados até 1978, quando o cantor deixou o Black Sabbath. Os dez discos do grupo lançados nos anos 70, enquanto Ozzy Osbourne esteve à frente, venderam cerca de 50 milhões de cópias.

Em sua carreira solo, o cantor repetiu a mesma receita do Black Sabbath, com letras em torno de temas ocultistas e uma sonoridade pesada baseada em riffs de guitarras. O sucesso veio logo nos primeiros lançamentos com as canções “Crazy Train” e “Mr. Crowley”. Junto com ele a polêmica em torno de suas atitudes crescia. Uma das mais controversas foi quando ele arrancou com uma mordida a cabeça de um morcego jogado por um fã no palco. Ainda que Ozzy tenha imaginado que o bichinho era falso e por conta do fato tenha terminado no hospital, o episódio tornou-se folclórico, o cantor foi acusado de crueldade com os animais e o fato alimentou ainda mais sua imagem de satanista.

The Osbournes
Ozzy e parte da família na série "The Osbournes", da MTV

Além do seu talento para comandar um bom show de rock, ainda que sua voz fina e de baixo alcance não colabore, uma série de fatos bizarros manteve Ozzy em evidência ao longo dos anos 80. Um deles aconteceu nos primeiros anos de sua carreira solo. O cantor enfrentou uma profunda depressão logo após a morte do guitarrista Randy Rhoads, que não era só a alma musical da nova banda de Ozzy como também havia se tornado seu grande amigo. Rhoads morreu em um estranho acidente com um pequeno avião que se chocou contra o ônibus da própria banda durante uma turnê.

Em 1986, Ozzy foi acusado de incitar o suicídio de um adolescente por conta da polêmica música “Suicide Solution”, lançada em seu primeiro álbum solo “Blizzard of Ozz”, de 1980. A letra seria uma referência à morte do vocalista Bon Scott, do AC/DC, que após beber demais morreu enquanto dormia no carro. No entanto, para os pais de John McCollum, um jovem de 19 anos que atirou contra a própria cabeça após ouvir repetidamente vários discos de Ozzy, a letra, o ritmo e o tom da canção teriam tido um efeito cumulativo para provocar o comportamento autodestrutivo do filho. A Justiça norte-americana, no entanto, entendeu que não havia nada na canção que a caracterizasse como uma ordem para que alguém cometesse suicídio.

Antes do final dos anos 80, Ozzy mantinha-se em evidência graças a seus novos álbuns e a mais uma polêmica. Desta vez, o alvo era o televangelista Jimmy Swaggart, que havia realizado uma cruzada contra Ozzy por conta do suicídio do jovem McCollum. Em 1987, Swaggart foi flagrado com uma prostituta e reconheceu publicamente ser viciado em pornografia. Em sua vingança, Ozzy lançou a composição “Miracle Man”, onde fez uma ácida crítica à hipocrisia do pastor.

Após o anúncio de uma aposentadoria no início dos anos 90, Ozzy voltou no meio da década com novas canções e um megafestival itinerante: o OzzFest. Dedicado a grupos de hard rock e com o objetivo de também divulgar novos artistas, as edições anuais do OzzFest trouxeram Pantera, Marilyn Mason e até mesmo uma reunião de Ozzy com o Black Sabbath em 2001, vista por cerca de um milhão de fãs em sua turnê pelos Estados Unidos.

A última reinvenção de Ozzy aconteceu no começo do novo milênio. No reality show “Os Osbournes”, produzido e levado ao ar pela MTV entre 2002 e 2005, ele aparece como um atordoado pai de família sofrendo com as agruras e divertindo o público com o cotidiano de sua esposa e seus filhos. Mostrar esse lado família levou Ozzy a um jantar na Casa Branca com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em 2002. Surpreso com o convite, o “Príncipe das Trevas” do rock declarou que acreditava que poderia estar em algum cartaz de procurado na parede da sala, mas nunca que iria algum dia lá para tomar chá.

Ozzy Osbourne figura na lista dos artistas pop mais ricos do Reino Unido, segundo o jornal Sunday Times. Fanáticos religiosos dirão que essa riqueza é resultado de seu pacto com Satã. Mas, na realidade, foi sua percepção artística no final dos anos 60 o começo do segredo de seu sucesso. Oriundos da classe trabalhadora e pobre de Birmingham (Inglaterra), ele e seus companheiros do Black Sabbath injetaram no rock toda a agressividade e as frustrações que ecoavam junto a uma vasta massa de jovens que vivenciavam a mesma situação e não encontravam respostas na "paz e amor" do movimento hippie ou da psicodelia. Fazer canções e assumir um personagem para um público que tem uma experiência e uma visão pessimista da vida fez de Ozzy o bem sucedido “Príncipe das Trevas” do rock.