![]() Reprodução Sandman, o "senhor dos sonhos" |
Esta introdução é importante para situar a reestruração que Gaiman fez em 1989. Sem desconsiderar os antigos aspectos do personagem (eles não foram “apagados da existência”, mas reincorporados), o britânico mudou o rumo. A revista “Sandman” que estreou em dezembro de 1988 trazia um personagem diferente: mais do que um humano fantasiado ou um super-herói, Sandman era uma espécie de entidade divina responsável pelo sonhar. Havia seis outras criaturas como ele: os Perpétuos, seus irmãos. Em comum, eles têm enormes poderes e responsabilidades – são criaturas cujos atos influenciam no destino do universo.
![]() Reprodução "Noites sem Fim" (Conrad, 2004) com histórias de Sandman e seus irmãos (Morte, Desejo, Desespero, Delirium, Destruição e Destino) |
“Sandman” foi lançado originalmente até 1996, totalizando 75 números, além de uma edição especial e duas minisséries em três números estreladas pela Morte, a carismática irmã mais velha do personagem-título. Algumas histórias curtas envolvendo os personagens também foram publicadas em edições especiais. A série, que continua sendo republicada até hoje (por exemplo, “The Absolute Sandman”, que condensa as dezenas de histórias em quatro volumes), foi premiada 30 vezes no Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos norte-americanos, inclusive na categoria melhor série contínua (de 1991 a 93). Gaiman venceu o Eisner de melhor escritor de 1991 a 94.
![]() Reprodução Página da história "Calíope", ilustrada por Kelley Jones e Malcolm Jones III, na graphic novel "Terra dos Sonhos" (Conrad, 2005) |
Miracleman
Enquanto escrevia “Sandman”, nos anos 90, Gaiman se envolveu em outra série cult – esta, menos famosa: “Miracleman”. Tudo começou em 1954, quando a editora norte-americana Fawcett, que criava as HQs do Capitão Marvel, foi processada pela rival DC Comics – o Capitão Marvel seria plágio do Superman. Com isso, a editora britânica que republicava as histórias do Capitão Marvel ficou sem material para suas revistas. Mick Anglo criou então o Marvelman, por sua vez um plágio do Capitão Marvel.
Décadas depois, em 1982, o então desconhecido Alan Moore assumiu as histórias do Marvelman e começou uma das mais inovadoras HQs de super-heróis. As histórias tinham o realismo fantástico típico do gênero, mas eram mais profundas e sombrias. Devido a um processo movido pela editora norte-americana Marvel, Marvelman tornou-se Miracleman. Moore escreveu 16 números dessa série, sendo que o último deles saiu em dezembro de 1989.
É aí que entra em cena Neil Gaiman, um roteirista ainda em ascensão. “Miracleman” nº 17, o primeiro escrito por ele, saiu em junho de 1990. Gaiman havia previsto três séries de histórias (“A Era de Ouro”, “A Era de Prata”e “A Idade das Trevas”), cada uma com seis capítulos. Entretanto, a editora Eclipse faliu, e o último capítulo publicado foi o segundo da “A Era de Prata” (lançado em “Miracleman” nº 24, de junho de1993). Para tristeza de Gaiman e dos fãs, os dez capítulos finais não foram publicados.
A questão não acabou aí. A editora Eclipse foi comprada pelo quadrinista canadense Todd McFarlane, que ficou com 70% dos direitos do Miracleman. McFarlane e Gaiman, que já se envolviam em uma disputa judicial envolvendo os direitos de três personagens criados por Gaiman para a revista “Spawn”, de McFarlane, passaram a disputar a partir de 1997, também na Justiça, o direito da publicação de Miracleman. A questão é tão séria para Gaiman que em 2002 ele criou a Marvels and Miracles LLC, um fundo cujo objetivo é conseguir, em definitivo, os direitos sobre a publicação do personagem. Graças a essa disputa de tantos anos, o personagem não pode mais ser publicado. Em 2008, 15 anos após a interrupção da revista “Miracleman”, o destino do personagem permanece indefinido.
No Brasil, as quatro primeiras histórias do Miracleman de Alan Moore foram publicadas de 1989 a 1990 pela editora Tannos. O Miracleman de Neil Gaiman permanece inédito por aqui.