Música eletrônica: do erudito ao pop

Até virar um gênero pop e um fenômeno comportamental, a música eletrônica atravessou diferentes etapas e caminhos. Tudo começou com as experimentações da vanguarda artística do início do século 20. Entre as várias inovações que surgiram com o objetivo de renovar a música erudita feita até então, como o dodecafonismo e o atonalismo, veio também o uso de recursos elétricos nas músicas. Além disso, havia a idéia de se introduzir nas composições ruídos dos novos tempos que surgiam. O movimento Futurista, inspirado na velocidade e nos avanços tecnológicos da virada do século 19 para o 20, propunha, por exemplo, que a música reproduzisse o som industrial.

Pet Shop Boys
Álbum dos Pet Shop Boys: pioneiros da música eletrônica no pop-rock nos anos 80

As experimentações na música erudita levaram ao desenvolvimento de vários equipamentos eletrônicos, como os gravadores de fitas magnéticas, que permitiram a armazenagem e edição dos sons, e os sintetizadores analógicos, que criavam novos sons pela manipulação da corrente elétrica. Esses equipamentos, desenvolvidos a partir da colaboração entre técnicos e músicos desde o começo do século 20, seriam os embriões de toda a parafernália que junto com os computadores fariam da música eletrônica pop um sucesso no final do século passado e começo deste.

Na música erudita, a chamada música eletrônica ganhou o nome mais específico (e preciso, segundo alguns) de música eletroacústica nos meados dos anos 50. Na mesma época, eclodiu a cultura pop e com ela os recursos eletrônicos ganharam cada vez mais espaço nos principais gêneros da música popular. Os primeiros equipamentos que migraram, do mundo erudito para o pop nessa fase foram o sintetizador Moog, que tornou possível criar sons antes inimagináveis com a interferência nos osciladores sonoros eletrônicos e variações na modulação do som, e o órgão elétrico Hammond, que gera sinais elétricos que são transformados em sons acústicos.

Na década de 70, as experimentações eletrônicas na música pop definiram o caminho do fenômeno que ganhou as pistas de dança e criou uma nova tendência no comportamento jovem. Duas vertentes foram fundamentais para isso. Uma delas era a música discoteca que usou de sintetizadores e baterias eletrônicas para restaurar como prioridade da cultura pop as músicas para dançar. É nesse momento que os disc-jóqueis (DJ’s) começam a surgir como grandes estrelas desse tipo de música, ao mixar, estender e combinar gravações para criar uma atmosfera e uma interação com o público, de forma a manter a agitação na pista de dança. A herança cultural da era da discoteca foi fundamental para a configuração da música eletrônica pop das décadas seguintes.

Outra contribuição essencial para isso foi a inovação do uso de recursos eletrônicos na composição e performance das músicas pop, levada a cabo pelo grupo de rock alemão Kraftwerk no começo dos anos 70. Ao usarem exclusivamente equipamentos eletrônicos em suas músicas, o Kraftwerk não só introduziu experimentações de vanguarda no cenário do rock como também indicou uma tendência para a música pop. O lançamento do álbum “Autobahn”, em 1975, foi um marco nesse sentido, ao incorporar às músicas um ritmo pulsante e hipnótico e criar uma atmosfera futurista.

Com novas fronteiras abertas, tendo a perspectiva de uma música para dançar de um lado, como a disco music, e os recursos eletrônicos de outro, a música pop caminhou em direção à música eletrônica por diversas estradas. Numa delas, ligada ao rock e ao pop, que surgem após o furacão punk, caminham grupos como o New Order e Depeche Mode, que fazem uma sonoridade dançante, baseada no uso de sintetizadores, samplers e computadores, mas mantendo a formação clássica das bandas de rock, com guitarra, baixo e bateria. Noutra estavam os grupos pop em que predominou o uso dos sintetizadores e das baterias eletrônicas, como Pet Shop Boys e Soft Cell. Outra vertente que caracterizou a música tecno e a cultura da dance music, que prevaleceu nos anos 90 e começo dos anos 2000, foi criada com o encontro dos equipamentos eletrônicos com os gêneros da música negra norte-americana, como o funk, o hip hop e o rhythm’n’blues.
A partir da década de 80, ocorre também o desenvolvimento e a popularização de uma série de tecnologias que possibilitaram o avanço da música eletrônica. Tornaram-se realidade e ficaram cada vez mais acessíveis economicamente equipamentos como seqüenciadores, que criam sonoridades eletrônicas a partir de um protocolo MIDI (Music Interface Digital Instruments) e possibilitam o diálogo entre instrumentos digitais, baterias eletrônicas digitais, samplers, que permitem armazenar sons e manipulá-los para criar novos, computadores e sofisticados softwares de edição de áudio.

O resultado desse processo é que a música eletrônica pop, que surge a partir dos anos 80, caracterizou-se por uma batida marcante (entre 115 e 160 batidas por minuto), repetitiva e com uma circularidade rítmica, pela quase que completa ausência de vocais, por ter sido criada praticamente toda por meios eletrônicos e por ser feita para dançar. A música tecno ou eletrônica é, no começo do século 21, o exemplo mais acabado e popular de simbiose entre música e tecnologia.