A ditadura militar e o sucesso da anti-metáfora da canção brega

A bossa nova teve um curto reinado como preferência musical das elites urbanas. O golpe militar de 1964 acabou com a liberdade política e de expressão no país. Contribuiu para a decadência do gênero mais afinado com os “anos dourados”, e não com aquele período negro que tomou conta do Brasil. Surgiu então a MPB, um movimento que tentou representar a resistência musical contra a ditadura. Principalmente a partir de 1968, com a decretação do Ato Institucional Nº 5, que instalou um amplo sistema de controle e censura de qualquer manifestação contraria à ordem dominante, os artistas da MPB, que se manifestavam abertamente contra o regime, passaram a ser perseguidos e censurados. E o esforço para protestar, mesmo que através de metáforas em suas canções, fez de alguns deles ícones da resistência contra o regime militar.

O status que a MPB assumiu naquele momento histórico fez nascer um fosso quase intransponível para todas as manifestações musicais que não se enquadravam na categoria de canção engajada. Assim, a música cafona, que já era estigmatizada por uma questão estética, passou a ser marginalizada também pelo aspecto ideológico. E virou uma vala comum onde tudo aquilo que não se enquadrava na categoria da MPB seria jogado dali para a frente. Até a Jovem Guarda, movimento musical que criou uma versão nacional pop para o rock internacional, apesar do sucesso junto ao público jovem, chegou a ser considerada cafona.

Estava criada assim uma fronteira estética e ideológica entre a música de “bom gosto” e a de “mau gosto”. E, de repente, muita gente que fazia sucesso até então, virou cafona. Alguns artistas conseguiram migrar para outros gêneros. Muitos, no entanto, lá ficaram a contragosto. Outros resolveram assumir o rótulo e parecem ter descoberto que isso não era tão ruim assim. Afinal, a partir do início dos anos 70, a música cafona, já denominada de brega, ganhou espaço na mídia, uma vez que a censura barrava grande parte da produção musical da MPB.

Gretchen
­Divulgação
Sucessos de Gretchen, como “Freak Le Boom Boom”, provavelmente seriam censurados na época da ditadura militar no Brasil

Enquanto a MPB tentava driblar a censura com letras repletas de metáforas, a música brega caminhava em sentido contrário. Com uma temática popular, que tratava do dia-a-dia de gente comum, com letras simples e diretas, tornou-se uma alternativa viável para a indústria fonográfica e os veículos de comunicação. É verdade que nem por isso passou ilesa pelos censores. Várias canções de Odair José, por exemplo, foram vetadas por seu caráter “pornográfico”. Enquanto Roberto Carlos cantava os beijinhos no portão, as músicas do compositor brega incomodavam ao retratar a vida sexual que rolava às escondidas na moralista sociedade brasileira, como em “Vou Tirar Você Desse Lugar”, de 1970, que fala da paixão por uma prostituta:

Olha, da primeira vez que eu estive aqui
foi pra me distrair
eu vim em busca de amor
Olha, foi então que eu te conheci
naquela noite fria
nos seus braços os problemas esqueci
Olha, da segunda que eu estive aqui
Já não foi pra me distrair
Eu senti saudades de você
Olha, uhhh, eu precisei dos seus carinhos
eu me sentia tão sozinho e já não podia mais te esquecer
Eu vou tirar você desse lugar
eu vou levar você pra ficar comigo
e não me interessa o que os outros vão pensar


Outras composições dos artistas bregas também foram censuradas por diferentes razões. “Tortura de Amor”, de Waldick Soriano, lançada em 1974, foi vetada por causa da palavra tortura, embora tenha sido composta em 1962, período em que o golpe militar sequer tinha acontecido. Já a canção “Treze Anos”, de Luiz Ayrão, foi proibida ao ser lançada no mesmo ano em que o golpe militar comemorava também seu décimo terceiro aniversário. Trocado o título por “O Divórcio”, foi liberada, embora o conteúdo tenha continuado absolutamente o mesmo:

Há treze anos eu te aturo e não agüento mais
Não há cristo que suporte e eu não suporto mais
Você vem me sufocando como o próprio gás


As intervenções da censura na música brega foram inclusive motivo de pesquisa do historiador Paulo Cesar de Araújo, em seu livro “Eu Não Sou Cachorro, Não”, que defende a tese de que ela não era tão alienada quanto se pensava. Verdade ou não, o fato é que, os cantores da primeira geração da música brega, como Waldick Soriano ("Paixão de um Homem" e "Se Eu Morresse Amanhã"), Lindomar Castilho (“Eu Vou Rifar Meu Coração" e "Você é Doida Demais"), Odair José ("Deixa Essa Vergonha de Lado", "Uma Vida Só" e "Pare de Tomar a Pílula"), Amado Batista (“O Lixeiro e a Empregada” e “O Acidente”), Almir Rogério (“Fuscão Preto”), entre outros, fizeram sucesso falando em suas canções sobre a vida de gente de classes “menos favorecidas”, de seus problemas amorosos e desilusões.

Com o tempo, essa temática foi perdendo espaço para outra tendência. Aos poucos a rigidez moral, que fazia assuntos relacionados à sexualidade não serem facilmente aceitos, deu lugar a uma permissividade cada vez maior. Não somente garantida por uma sociedade que vivia uma revolução de costumes, mas também por uma indústria cultural que apostava cada vez mais no erotismo como modelo de entretenimento musical para as massas. Graças a isso, surgiu a partir do final dos anos 70 uma nova geração de artistas bregas, como Sidney Magal (“Se te Pego com Outro te Mato” e “O Meu Sangue Ferve por Você”), Gretchen (“Melô do Piripipi” e “Conga La Conga”) e Genghis Khan, entre outros. Artistas que investiram na junção do erotismo com uma levada pop dançante. A música “Sandra Rosa Madalena”, interpretada por Sidney Magal com um caricato estilo latin lover, recheado de rebolados e gestos afetados, tornou-se um verdadeiro sucesso do gênero:

Quero vê-la sorrir
Quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo
Dançar sem parar...
Ela é bonita
Seus cabelos muito negros
E o seu corpo
Faz meu corpo delirar
O seu olhar desperta em mim
Uma vontade
De enlouquecer
De me perder
De me entregar...

Wando em show
­Divulgação
Show do cantor e compositor Wando, um dos mais bem sucedidos artistas populares no Brasil desde os anos 70

Mas foi o cantor Wando que trouxe para suas músicas e performances requintes de erotização difíceis de serem superados até hoje, como se vê na canção “Fera Louca”, de 1977:

Sou bicho vadio sou fera no cio
Ui-Wando paixão
Sou mais que loucura te quero todinha de novo no chão
Um beijo molhado nessa boca quente
Eu juro que dou
Te aqueço do frio, te afago em meu corpo sedento de amor
Ou, ou, ou, ou, te levo pro mato
Pra rede ou pro quarto te arranho de amor
Te quero tão nua vem ser meu desejo
Em meu cheiro e suor
Te levo às estrelas, te faço menina não te deixo só