Petróleo, prisão e Zé Brasil

Monteiro
Foto sob licença de Monteiro Lobato Licenciamentos
Monteiro Lobato viveu entre 1927
e 1931 em Nova Iorque (EUA)

Em 1927, já bastante conhecido, Monteiro Lobato é nomeado para o posto de adido comercial em Nova Iorque, para onde se muda com toda a família. A experiência de vida em um país industrialmente desenvolvido o fascina: Lobato conhece novas técnicas de beneficiamento de minério de ferro, as auto-estradas, o metrô, o cinema falado, a indústria automobilística e tudo o que lhe faz reavivar a antiga paixão pelo moderno. Empolgado, sonha em criar no Brasil companhias que viabilizem a aplicação das novas tecnologias para a transformação de ferro em aço, prevendo grandes lucros num futuro próximo.

Mas no auge dos sonhos capitalistas, Monteiro Lobato aplica na Bolsa de Valores de Nova Iorque e, quando ela quebra, deflagrando a grande crise mundial de 1929, ele se vê sem nenhum dinheiro, tendo que regressar ao Brasil em meio a sérias dificuldades econômicas, que o levam a vender suas ações da Companhia Editora Nacional.

A partir de então, já aos 50 anos de idade, Monteiro Lobato passa a viver de seus ganhos como escritor e tradutor, passando horas diante da máquina de escrever, seja rearranjando seus próprios textos, seja criando novas histórias para o “Sítio” ou traduzindo outros autores. Mas sua fé no desenvolvimento do Brasil continua viva. Ele defende uma política que transfira para a iniciativa privada nacional a extração do petróleo e o beneficiamento do minério de ferro, encabeçando uma campanha em prol da formação de companhias de exploração de petróleo e tentando sensibilizar os governantes para a importância da causa.

America
Reprodução sob licença de Monteiro Lobato Licenciamentos
"América" mostra a visão do escritor sobre a sociedade e a modernidade que ele vivenciou nos tempos em que passou nos Estados Unidos

Em 1931, funda a Companhia do Petróleo do Brasil e mais três empresas co-irmãs, todas levadas ao fracasso, por motivos que vão de boicote econômico a sabotagem técnica, além das razões políticas apontadas por Lobato: o compromisso do Departamento Nacional de Produção Mineral e do Conselho Nacional de Petróleo com os interesses de grandes conglomerados petrolíferos internacionais.

Perdendo o dinheiro e as ilusões capitalistas, Monteiro Lobato muda sua posição diante do anteriormente admirado american way of life, percebendo as complexas relações internacionais de poder dos monopólios que o sustentam. Essas reflexões o levam a publicar “O escândalo do petróleo” (1936), livro no qual narra as agruras de sua campanha petrolífera. Em 1937, já sob a ditadura de Getúlio Vargas, o livro é proibido de circular e as relações de Monteiro Lobato com o governo tornam-se complicadas. Em 1941, após recusar a assumir a direção do Ministério da Propaganda e enviar uma carta a Getúlio Vargas, responsabilizando-o pela má política nacional de minérios, Monteiro Lobato acaba sendo preso. Fica na cadeia por cerca de três meses e se compadece dos problemas dos detentos. Tenta ensinar um deles a ler, partilha os doces que lhe enviavam e faz-se porta-voz dos presos.

Ao sair do presídio, desencantado com o governo, amargurado pela perda recente de dois de seus filhos, ainda jovens, e pelo suicídio do cunhado, Monteiro Lobato passa a viver de direitos autorais e traduções, até que, em 1946, muda-se para a Argentina, onde funda a editora Acteon. Mas a saudade do Brasil e dos amigos o traz de volta, já no ano seguinte.
Já convicto dos problemas do capitalismo internacional e liberto das ilusões juvenis, Monteiro Lobato retorna à figura do caipira, do Jeca Tatu, mas, dessa vez, sob uma ótica totalmente diferente.

Em vez de usar o caipira para personificar o atraso da agricultura brasileira, Lobato faz uma auto-crítica de suas idéias de 1914, quando ainda não sabia reconhecer a amplitude do problema agrário nacional, lançando “Zé Brasil” (1947). No livro, O Jeca ressurge como Zé Brasil, um sem-terra para quem, a única esperança de salvação está representada no Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes.

Um ano após a publicação de “Zé Brasil”, Monteiro Lobato morre, no auge da consagração como escritor.