A Semana de Arte Moderna de 1922

Logo ao entrar no saguão do Teatro Municipal de São Paulo era possível ver uma exposição de obras estranhas, modernas e exóticas. Seus autores eram novos nomes nas artes plásticas nacionais, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro e Victor Brecheret. Após atravessar o saguão e entrar na platéia, o público poderia assistir a uma conferência de Graça Aranha, prestigiado escritor e diplomata, recém-chegado da Europa. O tema era “A Emoção Estética na Arte Moderna”. Nesse cenário, numa noite de segunda-feira inaugurou-se “oficialmente” o Modernismo no Brasil.

Era o ano do Centenário da Independência do país. Nesse clima tão propício, um grupo de artistas e intelectuais, patrocinados por ricos fazendeiros e comerciantes de café, ocupou o Teatro Municipal de São Paulo para mostrar sua nova e moderna arte. A cidade, que viu sua população crescer dez vezes entre 1890 e 1920 e vivia um processo de urbanização e modernização frenético para os padrões da época, tinha a atmosfera certa para abrigar os modernistas. Mas mesmo assim, ela assistiu estupefata, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, às apresentações de poesia, música, dança, artes plásticas, discursos e conferências. A elite paulistana reagiu na maior parte das apresentações com vaias e insultos, provavelmente de acordo com a expectativa dos modernistas, que pretendiam escandalizar com suas idéias e performances.

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o ponto alto de uma movimentação de jovens artistas e intelectuais contra o academicismo que tomava conta das artes brasileiras. Desde uma década antes as influências das vanguardas européias repercutiam no Brasil, como nas exposições expressionistas de Lasar Segal, em 1913, e de Anita Malfatti, em 1914 e 1917, ou nos versos livres da obra “Carnaval”, de Manuel Bandeira, lançada em 1919. Mas é somente a partir de toda a movimentação em torno da Semana de Arte Moderna que o Modernismo ganha um marco definitivo, ainda que tardiamente, no Brasil.

Com ela procurou-se consolidar e tornar pública a proposta de renovar nossas artes, a partir de uma permanente atualização e pesquisa estética e de ruptura com os cânones acadêmicos puristas, além da introdução de temáticas nativistas. Os modernistas buscavam ainda introduzir a linguagem coloquial, a cultura popular, a livre expressão e o modo de pensar da vida moderna.

Após a realização da Semana, São Paulo se torna o centro das idéias modernistas no Brasil. O vigoroso processo de urbanização e de industrialização da cidade e a influência da imigração italiana na época criaram uma atmosfera propícia a isso. Nesse ambiente, que se identificava plenamente com os ideais modernistas, jovens artistas e intelectuais encontram espaço para desenvolverem uma nova e progressista arte.

Um "happening" em 1922

Com Di Cavalcanti como um dos organizadores, a Semana de Arte Moderna foi propositadamente pensada para chocar a elite cultural paulistana. Foram programadas, em torno de uma exposição de obras modernistas no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, uma série de conferências, apresentações musicais, discursos, declamações e performances de dança com conteúdo e formatos totalmente inovadores e polêmicos para a época. A programação incluiu a leitura de poema por Oswald de Andrade, um discurso sobre estética por Mário de Andrade, uma conferência sobre arte e estética por Menotti del Picchia, a leitura do poema “Os Sapos” de Manuel Bandeira e um recital de Villa-Lobos. Quase todas as apresentações aconteceram sob vaia intensa e insultos da platéia. A partir da Semana de Arte Moderna de 1922, o rompimento da nova geração de artistas e intelectuais brasileiros com o academicismo, o parnasianismo e o simbolismo era "oficial". Dali até 1930, ocorre a consolidação da renovação estética no Brasil inspirada nos movimentos de vanguarda europeus. As artes plásticas e a literatura encabeçaram essas transformações, mas elas chegaram também à música, à arquitetura, à produção intelectual e ao comportamento.