Mário de Andrade: a voz do Modernismo brasileiro

Não há como falar de Mário de Andrade sem tocar num dos movimentos de vanguarda mais marcantes da história literária brasileira, o Modernismo. Mas é importante, também, entender o Modernismo brasileiro como um grande guarda-chuva, sob o qual reúnem-se artistas com características próprias e diversas uns dos outros, ligados pela inovação que seus projetos artísticos representavam diante do parnasianismo e do simbolismo – escolas que passariam a ser vistas como “passadistas” -, mas independentes uns dos outros quanto à linguagem, aos estilos, às formas únicas com que cada um buscava alcançar os ideais modernistas.

Mário de Andrade na Semana de Arte Moderna de 1922
Reprodução
Mário de Andrade (no primeiro plano) na Semana de Arte Moderna de 1922
No Brasil, o Modernismo surge num contexto sócio-político de crise. Em fins do século 19, o quadro político da chamada República Velha, quando ainda vigorava a política do “café com leite”, começa a entrar em colapso diante do crescimento de uma burguesia industrial, em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de profissionais liberais e de membros do Exército, que passam a buscar formas próprias de expressão e a reivindicar uma participação mais ativa na sociedade e na política. Os processos de urbanização e a chegada em massa de imigrantes europeus para a região centro-sul, aumentando a participação das classes média, operária e subproletariada na sociedade finissecular brasileira, coloca em choque o poder estabelecido pelas oligarquias rurais e o poder, ainda não reconhecido, dos novos estratos socioeconômicos.

Diante desse cenário, os intelectuais brasileiros, na década de 20, encontram-se obrigados a definir suas posições, o que acaba se refletindo na formação ideológica da literatura modernista. Começa-se a ler os futuristas italianos, os surrealistas franceses e os dadaístas; fala-se da psicanálise de Freud, do cubismo de Picasso, do anarquismo espanhol, da revolução russa… e desse caldeirão de inquietudes e influências européias, temperadas com o questionamento das instituições sociais e políticas brasileiras, surgem as tendências irracionalistas, o tom agressivo diante das formas de arte do passado, e as atitudes estético-existenciais dos nossos modernistas, entre eles, Mário de Andrade.

Como movimento, o Modernismo brasileiro nasce com data e local bem definidos: a Semana de Arte Moderna, realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, na cidade de São Paulo. Realizada no Teatro Municipal, a Semana reuniu, pela primeira vez, jovens artistas da literatura, das artes-plásticas, da música e da arquitetura, que apresentaram suas obras e suas concepções sobre a nova arte. Graça Aranha abriu a Semana com uma conferência na qual criticava o academicismo e o conservadorismo da arte brasileira; poemas de Oswald de Andrade e de Manuel Bandeira foram lidos; Villa-Lobos e a pianista Guiomar Novaes se apresentaram; obras de Brecheret, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros foram expostas; e Mário de Andrade leu, nas escadarias do Teatro, seu ensaio “A escrava que não é Isaura”. O público, acostumado a eventos artísticos mais convencionais, recebeu as novas propostas com um misto de surpresa, indignação e muitas vaias, mas foi justamente Mário de Andrade quem se colocou como o porta-voz do movimento, apaziguando os ânimos nos intervalos das apresentações por meio da explicação dos pressupostos do Modernismo, com seu talento nato para a argumentação e o convencimento.

Segundo Alfredo Bosi, “se na pressa dos manifestos houve apenas colagem de matéria-prima nacional e módulos europeus, nos frutos maduros do movimento se reconhece a exploração feliz das potencialidades formais da cultura brasileira. Provam-no a ficção de Mário de Andrade, a poesia regional-universal de Bandeira, o ensaísmo de Tristão de Ataíde e de Gilberto Freyre, a pintura de Tarsila e de Portinari, a escultura de Brecheret, a música de Villa-Lobos”.