Não há como falar de Mário de Andrade sem tocar num dos movimentos de vanguarda mais marcantes da história literária brasileira, o Modernismo. Mas é importante, também, entender o Modernismo brasileiro como um grande guarda-chuva, sob o qual reúnem-se artistas com características próprias e diversas uns dos outros, ligados pela inovação que seus projetos artísticos representavam diante do parnasianismo e do simbolismo – escolas que passariam a ser vistas como “passadistas” -, mas independentes uns dos outros quanto à linguagem, aos estilos, às formas únicas com que cada um buscava alcançar os ideais modernistas.
![]() Reprodução Mário de Andrade (no primeiro plano) na Semana de Arte Moderna de 1922 |
Diante desse cenário, os intelectuais brasileiros, na década de 20, encontram-se obrigados a definir suas posições, o que acaba se refletindo na formação ideológica da literatura modernista. Começa-se a ler os futuristas italianos, os surrealistas franceses e os dadaístas; fala-se da psicanálise de Freud, do cubismo de Picasso, do anarquismo espanhol, da revolução russa… e desse caldeirão de inquietudes e influências européias, temperadas com o questionamento das instituições sociais e políticas brasileiras, surgem as tendências irracionalistas, o tom agressivo diante das formas de arte do passado, e as atitudes estético-existenciais dos nossos modernistas, entre eles, Mário de Andrade.
Como movimento, o Modernismo brasileiro nasce com data e local bem definidos: a Semana de Arte Moderna, realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, na cidade de São Paulo. Realizada no Teatro Municipal, a Semana reuniu, pela primeira vez, jovens artistas da literatura, das artes-plásticas, da música e da arquitetura, que apresentaram suas obras e suas concepções sobre a nova arte. Graça Aranha abriu a Semana com uma conferência na qual criticava o academicismo e o conservadorismo da arte brasileira; poemas de Oswald de Andrade e de Manuel Bandeira foram lidos; Villa-Lobos e a pianista Guiomar Novaes se apresentaram; obras de Brecheret, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros foram expostas; e Mário de Andrade leu, nas escadarias do Teatro, seu ensaio “A escrava que não é Isaura”. O público, acostumado a eventos artísticos mais convencionais, recebeu as novas propostas com um misto de surpresa, indignação e muitas vaias, mas foi justamente Mário de Andrade quem se colocou como o porta-voz do movimento, apaziguando os ânimos nos intervalos das apresentações por meio da explicação dos pressupostos do Modernismo, com seu talento nato para a argumentação e o convencimento.
Segundo Alfredo Bosi, “se na pressa dos manifestos houve apenas colagem de matéria-prima nacional e módulos europeus, nos frutos maduros do movimento se reconhece a exploração feliz das potencialidades formais da cultura brasileira. Provam-no a ficção de Mário de Andrade, a poesia regional-universal de Bandeira, o ensaísmo de Tristão de Ataíde e de Gilberto Freyre, a pintura de Tarsila e de Portinari, a escultura de Brecheret, a música de Villa-Lobos”.