Macunaíma: vozes do folclore brasileiro em tom moderno

O processo de composição literária de Mário de Andrade era marcado pelo cuidado com que o autor escrevia e reescrevia seus textos continuamente, polindo palavras e frases com apuro perfeccionista. Uma única exceção a esse modo de trabalho, o “Macunaíma: o herói sem nenhum caráter” (1928), foi escrito de uma só vez, em apenas seis dias, enquanto Mário passava férias num sítio em Araraquara. Entretanto, o processo de pesquisa que deu origem ao livro levou muito mais tempo: Mário de Andrade foi um exímio folclorista, de uma erudição impressionante, dedicando-se a estudos sobre etnografia, mitologia e arte primitiva entre os povos da América Latina.

Capa de uma das edições de Macunaíma um herói sem caráter
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Capa de uma das edições de "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter"
Nessa “rapsódia nacional”, como Mário define sua obra máxima, uma miríade de lendas folclóricas recebe um tratamento literário moderno e inédito, para a época. Para “Macunaíma”, Mário escreveu dois prefácios, mas acabou publicando o livro sem nenhum deles, já que, segundo Tristão de Ataíde, arrependeu-se dos dois: “Achou o primeiro insuficiente e o segundo suficiente demais.” De fato, escrever qualquer explicação prévia sobre “Macunaíma” seria difícil, já que a inovação literária representada pela obra na sua época não poderia ser resolvida numa simples advertência ao leitor.

Quando foi lançado, “Macunaíma” chocou críticos e leitores, aturdidos com a escrita repleta de neologismos, a combinação inusitada de gêneros e estilos numa mesma obra, o retrato alegórico e crítico do “herói sem nenhum caráter” que, supostamente, espelhava qualidades e defeitos tipicamente brasileiros. Nas palavras do autor, “o que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa me parece que certa: o brasileiro não tem caráter".

Essa falta de caráter do brasileiro era vista por Mário de Andrade não como um defeito moral, mas sim como traço de um povo ainda jovem, que ainda não possui “civilização própria nem consciência tradicional”.

Deus ou o grande mal?

Theodor Koch-Grünberg, etnógrafo alemão autor do livro que serviu de inspiração para Mário de Andrade, aponta a ambigüidade do caráter macunaímico já na origem de seu nome. Macunaíma derivaria da palavra indígena MAKU, que significa “mau”, combinada ao sufixo IMA, que significa “grande”. Dessa forma, Macunaíma significaria “O Grande Mau”. Ironicamente, graças aos poderes de criação conferidos ao personagem, missionários ingleses que traduziram a Bíblia Cristã para a língua indígena decidiram dar a Deus o nome de Macunaíma. Isso demonstra o quanto nosso anti-herói é capaz de provocar leituras contraditórias, desde sua criação original, como lenda indígena, até nas interpretações dos críticos contemporâneos de Mário de Andrade

Segundo Haroldo de Campos, a idéia de criar “Macunaíma – o herói sem nenhum caráter” surgiu quando Mário de Andrade leu a obra em cinco volumes do alemão Theodor Koch-Grünberg, “Vom Roroima zum Orinoco” (“De Roraima ao Orenoco”), principalmente o segundo tomo, que trata dos “Mitos e legendas dos índios Taulipang e Arecuná”, resultante de uma expedição pelo Brasil e pela Venezuela realizada entre 1911 e 1913.

Esse segundo volume reúne mitos e lendas de heróis, narrativas humorísticas, contos e fábulas, entre os quais se encontram duas versões da lenda “A árvore do mundo e a grande enchente”. Na versão dos índios Taulipang, o herói Macunaíma aparece desde o início, acompanhado de cinco irmãos. Já na versão dos Arecuná, a falta de caráter de Macunaíma é explícita e seu papel na lenda é bastante ambíguo, já que, apesar de ser malicioso, pérfido e safado, o anti-herói desempenha a função de provedor da família, que depende totalmente dele para sobreviver, já que Macunaíma é dotado de poderes de criação e transformação.

Além das lendas de Macunaíma e seus irmãos, Mário de Andrade se vale de um profundo conhecimento do folclore brasileiro para compor sua rapsódia, forjando um diálogo fantástico entre diversas fábulas e estórias do nosso imaginário popular, todas entrelaçadas numa imensa rede de vozes miscigenadas, de origens tão variadas quanto as que formam a própria cultura brasileira.