Conquistado o mercado japonês desde o início do século 20, faltava ainda aos heróis dos mangás invadirem outras praias. Os primeiros passos nesse sentido foram dados ainda nos anos 60 por Osamu Tezuka. Em 1962, ele teve a idéia de transportar suas histórias em quadrinhos do papel para as telas de TV. Transformou em primeira mão o mangá "Astro Boy" em animê (derivado do termo inglês animation, que significa desenho animado) e o vendeu para exibição nos Estados Unidos. Com o interesse despertado no público infantil americano, os mangás começaram a preparar o terreno para a invasão que ocorreria anos mais tarde em todo Ocidente.
![]() View Enlarged Image Reprodução "Ragnarök" (Conrad) é um mangá coreano relacionado ao jogo homônimo on-line, ambos criados por Lee Myung Jin |
Mas foi na década de 70, graças ao sucesso econômico japonês, que além da filosofia empresarial e dos produtos eletrônicos, as artes marciais, o ikebana, o bonsai, o budismo e os animês passaram a despertar interesse no mercado Ocidental. Assim, com a anuência de papais e mamães, animações como “Robotech”, “Space Battleship Yamato”, “Manzinger”, “Devilman”, “Alps no Shojo Heidi” conquistaram toda uma geração de pequenos espectadores que se familiarizaram com a forma japonesa de contar histórias. Conquistado o público infantil, faltava, no entanto, chamar a atenção dos mais crescidinhos. Com o lançamento de “Patrulha Estelar”, de Leiji Matsumoto, nos anos 80, os animês chegariam lá. Com direção, enredo e trilha sonora diferenciados, a produção conseguiu cair no gosto também dos adolescentes e adultos, virando febre no mundo todo. Abria-se assim espaço para a invasão de outros animês e dos mangás.

Mas curiosamente, quem mais contribuiu para que a bandeira dos mangás fosse fincada em terras estrangeiras não foi nenhum japonês. O norte-americano Frank Miller, um dos mais importantes desenhistas de comics, criou, em 1983, "Ronin". A história contava a saga de um samurai sem mestre, claramente inspirada no estilo dos mangás. Ele contribuiu também para que fosse traduzido pela primeira vez para o inglês o mangá “Kozure Okami” (“O Lobo Solitário”), abrindo espaço para a tradução de várias outras histórias japonesas não só nos Estados Unidos, como também na Europa. “Dragon Ball” e “Dr. Salump”, por exemplo, desbancaram as vendas dos comics e também dos quadrinhos nacionais europeus durante anos, deixando Batman, o Homem Aranha, Asterix e Tintim a ver navios.
![]() View Enlarged Image Reprodução Em "Vampire Knight" (esquerda) garota é salva de vampiros por seu amor secreto; "MeruPuri - Märchen Prince" (direita) mostra a história de adolescente que conhece um príncipe vindo de um mungo mágico |
Histórias que viraram foco de interesse ainda maior em 1988, quando foi lançada a versão cinematográfica do mangá “Akira”, de Katsuhiro Otomo. Sucesso tão grande que não chamou só a atenção do público. Abalados com a “vitória” do guerreiro de terras estrangeiras, os gigantes superpoderosos da indústria de comics, que até então reinavam absolutos, abriram os olhos para o Oriente. A Marvel, uma das grandes editoras norte-americanas de comics, por exemplo, contratou na época o autor de mangá Kia Asamiya para a produção de uma série do X-Men.

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"Holy
Avenger", mangá criado por brasileiros, conta a saga da druida Lisandra
que sai em busca de ajuda para roubar um dos Rubis da Virtude
Nos anos 90, a batalha pela conquista de fãs pendeu para valer para o lado dos japoneses. Com a ajuda de um investimento de bilhões de dólares feito pela indústria cinematográfica japonesa, foram criados mais e melhores animês como “Dragon Ball Z”, “Pokémon”, “Néon Génesis Evangelion”, “Cowboy Bebop”, “Sailor Moon”, “Card Captor Sakura”, entre outros. Produções que não só aumentaram a base de espectadores em todo o mundo como também de leitores de mangá e de consumidores de toda uma gama de produtos derivados, criados a partir de então. O que transformou os mangás, os animês e seus subprodutos em um fenômeno cultural digno do avanço cultural americano ocorrido nos anos 50.
É, os superpoderosos heróis ocidentais que se cuidem, porque esta batalha parece estar longe de terminar.
No Brasil os primeiros mangás foram trazidos pelos imigrantes japoneses, muito antes de serem conhecidos em outros países. Nos anos 60, alguns descendentes começaram a produzir histórias em quadrinhos que chegaram ao mercado editorial. A estética japonesa se tornaria mais popular, ainda na mesma década, com a exibição na TV de animês como “Oitavo Homem” (Eight Man), “Ás do Espaço” (Uchu Ace), “Zoran” (Uchu Shonen Soran), “Homem de Aço” (Tetsujin Ni-ju-hachi Gou). Na década de 70, começaram a fazer sucesso entre a garotada também os animês “A Princesa e o Cavaleiro” (Ribon no Kishi), “Speed Racer” (Maha Go Go Go), “Super Dínamo” (Paa Man) e “Sawamu - O Demolidor” (Kick no Oni). |