Uma Missa do Galo para não esquecer

Uma cronologia antiga, e cada vez mais rejeitada, costuma classificar a obra de Machado de Assis em duas “fases”: na primeira, mais próxima da escola romântica, teria escrito romances relativamente anódinos como “A mão e a luva” e “Iaiá Garcia”; na segunda, a partir de “Memórias Póstumas”, realiza suas obras-primas. Tal divisão é vista hoje como simplificadora, porque ambas as fases do autor, ou as várias, aproximam-se mais do que supõe a vã diacronia. A estas obras mais conhecidas do grande público, soma-se uma quantidade de poemas, cartas, crônicas e textos críticos ainda a explorar, e tem-se, assim, o que o crítico literário Alfredo Bosi define como “embaraço da escolha” em Machado de Assis: qual deles ler?

Assim como a idéia de escritor de “duas fases”, outra recorrente é aquela segundo a qual o Machado contista é superior a todos os outros Machados – o que, também, soará como uma dessas frases de efeito que mais reduzem do que ampliam significados. Os contos, pela curta extensão, são em geral mais lidos e podem servir como ponto de partida.

De todos os contos, talvez o mais amado – ou ao menos o mais lembrado, ainda que seja difícil de chegar a esse tipo de conclusão – parece ser “Missa do Galo”. E não de hoje. Já nos anos 70, Osman Lins organizou um livro em que diversos escritores brasileiros recriavam a história. Ano passado, o título foi escolhido por metade dos 20 autores que responderam a uma revista literária qual era a preferida das narrativas breves machadianas. A outra metade citou nove contos diferentes, pulverização que só reforça a preferência por “Missa do Galo” – “uma perfeição estética”, resumiu Autran Dourado.

Se você, leitor, conhece pouco ou ainda não conhece Machado de Assis, comece, então, com “Missa do Galo”. Mas comece agora. A íntegra está disponível – assim como toda a obra do autor e de outros que tenham morrido há mais de 70 anos - no site do governo brasileiro (www.dominiopublico.gov.br). A sedução que Conceição exerce sobre Nogueira na noite de Natal será a mesma que o bruxo do Cosme Velho exercerá sobre você.

Obra completa
Desencantos (1861)
Queda que as mulheres têm para os tolos (1861)
Hoje avental, amanhã luva (1861)
O caminho da porta (1862)
O protocolo (1862)
Quase ministro (1863)
Crisálidas (1864)
Os deuses de casaca (1865)
Falenas (1870)
Contos Fluminenses (1870)
Ressurreição (1872)
Histórias da meia-noite (1873)
A mão e a luva (1874)
Americanas (1875)
Helena (1876)
Iaiá Garcia (1878)
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Tu, só tu, puro amor (1881)
Papéis avulsos (1882)
Histórias sem data (1884)
Quincas Borba (1891)
Várias histórias (1896)
Páginas recolhidas (1899)
Dom Casmurro (1899)
Poesias completas (1901)
Esaú e Jacó (1904)
Relíquias de casa velha (1906)
Memorial de Aires (1908)
Crítica (1910)*
Teatro coligido (1910)*
Outras relíquias (1921)*
Correspondência (1932)*
A semana (1914/1937)*
Páginas escolhidas (1921)*
Novas relíquias (1932)*
Crônicas (1937)*
Contos Fluminenses (1937)*
Crítica literária (1937)*
Crítica teatral (1937)*
Histórias românticas (1937)*
Páginas esquecidas (1939)*
Casa velha (1944)*
Diálogos e reflexões de um relojoeiro (1956)*
Crônicas de Lélio (1958)*
Conto de escola (2002)*

* obras póstumas