O mistério de Machado de Assis

Machado de Assis é considerado por muitos o maior prosador do país, o clássico dos clássicos, o preferido principalmente dos escritores, que o enaltecem com olhos técnicos. Como explicar tal mistério, a capacidade de despertar admiração perene e quase unânime? Em primeiro lugar, seu texto claro e elegante, embora de sintaxe invulgar, pode ser lido por qualquer estudante ainda no colegial. Há, porém, o “pulo do gato”: a estrutura e a ironia de suas narrativas só podem ser habilmente alcançadas à medida que o leitor se torna mais experiente. A cada releitura, não se perde a graça, a graça só aumenta.

Machado de Assis retrato
Foto: Acervo Academia Brasileira de Letras

Observador tanto de delicadas intimidades quanto de jogos sociais mais eloqüentes, Machado de Assis tem atraído gerações de estudiosos de correntes várias, da direita à esquerda, da crítica literária à sociologia, que inventam a cada vez novos ângulos para interpretá-lo e a sociedade a que pertenceu. Pode-se, aliás, compreender a história do pensamento sobre o Brasil a partir dos textos escritos para entender o autor. Na virada do século 19 para o 20, tem-se a visão sobre o escritor – e sobre o país - nos estudos de Silvio Romero, José Veríssimo, Augusto Meyer e Mário de Andrade. Mais recentes, há os de Roberto Schwarz, Raymundo Faoro e Alfredo Bosi. Até o fim dos anos 50, 18 novos estudos eram publicados por ano sobre Machado de Assis; no começo desta década, o número havia saltado para 70, segundo levantamento de Ubiratan Machado, também ele um dos seus especialistas.

Sobretudo, Machado de Assis atingiu a perfeição em vários gêneros – romance, conto, crônica e poesia – e bem mais de uma vez. Ou seja, não foi autor de apenas uma obra-prima, comprovou o talento em diferentes modalidades. Se o gosto por ele é unanimidade, é quase impossível dizer qual obra sua é a melhor – “Dom Casmurro” ou “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, para citar apenas os dois romances mais populares? Pois leia ambos, e tire a prova.

Memórias Póstumas
Reprodução

Memórias Póstumas de Brás Cubas

trecho inicial do Capítulo1:

Óbito do Autor


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: - "Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado".