Lost: a verdade está na ilha ou lá fora?

A fascinação pelo enredo e pelos mistérios criados pelos roteiristas de “Lost” encontrou na era da Internet um poderoso recurso para expandir ainda mais a febre e o alcance da série. Seja nos sites oficiais, como o da rede ABC e o Lost Experience, ou em blogs, fóruns e outros sites, a discussão para desvendar os segredos de “Lost” tem resultado em um interessante processo de desenvolvimento de teorias, que exploram desde a recuperação de clássicos da literatura de ficção científica e de realismo fantástico até as mais complexas teorias da física moderna. Isto sem contar as inúmeras citações cinematográficas que aparecem na série, notadamente as da saga de “Guerra nas Estrelas”. Selecionamos a seguir algumas das mais interessantes hipóteses desenvolvidas pelos fãs de “Lost”:

Barco
©2008 ABC, Inc.
Barco feito pelos sobreviventes para buscar resgate, mas que é impedido de chegar a algum lugar pelos "Outros"


A ilha é o purgatório

Os personagens estão mortos e a ilha é o purgatório. A idéia de que todos estão no limbo tem várias pistas. Os flashbacks revelam que muitos dos sobreviventes têm um passado sombrio, o que justificaria a ilha como um lugar para a purgação de seus pecados. Além disso, várias falas dos personagens reforçaram essa idéia como quando, em um dos flashbacks, Desmond fala para Jack: “te vejo em outra vida”. Durante as primeiras temporadas o mundo exterior existia apenas nesses flashbacks, mas a partir do final do segundo ano já vemos que alguns dos sobreviventes saíram da ilha e voltaram aparentemente ao mundo real, o que enfraquece a teoria de que eles estão no limbo. No entanto, os produtores da série deixaram pistas fortes nesse sentido. Há um livro publicado (de verdade) chamado “Bad Twin” (Hyperion, 2006), escrito por Gary Troup (anagrama, em inglês, para purgatório), que seria um dos passageiros desaparecidos do vôo 815 da Oceanic Air. Outra referência literária que reforça essa idéia vem da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Na obra, o purgatório é descrito como uma ilha cercada por um mar que impede que se chegue até lá. Por fim, há a declarada influência sobre os roteiristas do livro “O Terceiro Tira” (L&PM, 2006), do escritor irlandês Flann O’Brien. Nele, acontecimentos fantásticos cercam o personagem principal que vagueia infinitamente por um mundo insólito, como se estivesse em looping, acompanhado por sua recém-encontrada alma, pagando por seus crimes no passado e tentando desvendar enigmas e charadas.


Um universo paralelo feito de antimatéria

A quarta temporada trouxe novos indícios que podem indicar que os sobreviventes do vôo 815 estão na verdade em um universo paralelo. As coordenadas para que se chegue e se saia da ilha, calculadas pelo físico Daniel Faraday, podem funcionar como um “portal” que leva os personagens para dois diferentes universos. Um deles é o do mundo real em que vivemos e que está acontecendo fora da ilha – lá inclusive eles talvez estejam mortos, por conta do acidente, ou o acidente nem tenha acontecido –, o outro é um universo que funcionaria como um espelho do real, mas que seria invisível para nós já que ele é formado por antimatéria ou matéria escura. Os defensores dessa hipótese baseiam-se nos estudos do físico Robert Foot, da Universidade de Melbourne (Austrália), que escreveu o livro "Shadowlands: The Quest for Mirror Matter in the Universe" (Universal Publishers, 2002). Além disso, quem acompanha a série deve ter observado que há várias citações de “Guerra nas Estrelas” sobre o “lado escuro” (dark side) e o “lado iluminado” (light side), como a fala de John Locke logo no primeiro episódio. Assim, a Iniciativa Dharma poderia ser um acrônimo em inglês para Iniciativa do Lado Escuro (Dark Matter Initiative)? E o monstro da fumaça negra seria na verdade um fenômeno que ocorre quando há o contato entre os dois lados, os dois universos, entre matéria e antimatéria?

John Locke
©2008 ABC, Inc.
John Locke na cadeira de rodas no salão de embarque do aeroporto; na ilha, ele não precisará mais dela


Uma gigantesca máquina do tempo

O personagem Richard Alpert surge em diferentes momentos, com décadas de diferença entre eles, aparentando sempre a mesma idade. Desmond ao sair da ilha fica viajando entre o passado (1996) e o presente (2005). O físico Daniel Faraday mostra que há uma diferença de tempo entre a ilha e o mundo exterior. Imaginar que a ilha funcione como uma máquina do tempo pode explicar muitas coisas. As coordenadas de Faraday podem mostrar exatamente essa passagem do mundo real para o passado onde estão a ilha e os sobreviventes. Isso explicaria, por exemplo, a cura de Locke e Rose ao chegarem à ilha, afinal eles podem ter viajado a um momento no passado em que ainda não estavam doentes. A teoria de Faraday sobre se ter uma “constante”, uma referência que exista no presente e no passado, para que um viajante no tempo se mantenha vivo reforça a idéia de que ele próprio seja um viajante no tempo. A Iniciativa Dharma na verdade seria um experimento para viagens no tempo de que Ben, o líder dos “outros”, se apoderou. Daí os esforços sem medida do personagem Charles Wildmore, o milionário conhecedor do experimento, para encontrar as coordenadas que levem até a ilha.


Além destas, existem outras teorias sobre o mistério de “Lost” – apenas no site da rede de televisão norte-americana ABC há milhares de hipóteses enviadas pelos internautas. Alucinação, experimento científico, nanotecnologia, reality show, extinção da humanidade são alguns dos argumentos centrais que as sustentam. O mais impressionante disso é que a série tem mobilizado as pessoas a buscarem explicações muitas vezes em clássicos da literatura e do cinema e em teorias científicas sofisticadas. Uma atitude que provavelmente nem o mais otimista produtor da série imaginava que ela pudesse incentivar.

Os roteiristas e produtores têm reafirmado que a explicação para o que acontece na ilha é plausível e baseada em teorias científicas. Mas, seja qual for a sua teoria ou aquela em que você acredita, lembre-se de que os roteiristas têm sempre a possibilidade de saberem antecipadamente o que o público imagina que vai acontecer e mudar completamente o final. Afinal, muitas das mais complexas teorias, como a de viagem no tempo, permitem que a imaginação dos roteiristas vá longe e expliquem muitas coisas das maneiras mais criativas e bizarras possíveis. Até lá, muito provavelmente continuaremos perdidos.