Quando o Joy Division surgiu, o punk britânico estava no auge. Não por acaso, o encontro de Ian Curtis, que viria a ser o vocalista e letrista do Joy Division, com outros dois futuros integrantes do grupo – Bernard Sumner, guitarrista, e Peter Hook, baixista – aconteceu em 1976 em Manchester (Inglaterra) durante um show do Sex Pistols, o principal expoente do movimento punk no Reino Unido. Algum tempo depois, eles já formavam uma nova banda e, após a entrada do baterista Stephen Morris, os quatro já estavam compondo e tocando juntos sob o nome de Warsaw.
![]() Capa do álbum "Closer" (1980), que chegou às lojas após o suicídio de Ian Curtis |
Durante a década de 70, a crise econômica que atingiu a Inglaterra e impulsionou o movimento punk criou também o ambiente de desolação que alimentou o pós-punk depressivo e niilista do grupo. No final dos anos 70, a futurista e progressista Manchester, berço do Joy Division, era uma cidade decadente atingida em cheio pela recessão. Despovoada na região central e nos arredores, com áreas industriais devastadas e abandonadas, a cidade transparecia tristeza por todos os cantos. Para tornar mais sombria a atmosfera de Manchester, vigorava uma dura e agressiva política de controle moral e social, levada a cabo pela polícia local. Esse ambiente caustrofóbico e paranóico refletiu nas composições do Joy Division.
Em 1978, o grupo fez algumas apresentações no The Factory, clube noturno que deu origem a Factory Records, do produtor Tony Wilson, selo independente que lançou além do Joy Division toda uma geração de bandas do pós-punk de Manchester, como New Order e Happy Mondays. Além das questões econômicas e sociais, a ascensão de uma música eletrônica pop na segunda metade dos anos 70 também influenciou o Joy Division. O uso de sintetizadores e baterias eletrônicas, tanto pela música de discoteca como pelo rock eletrônico dos alemães do Kraftwerk, era uma novidade que foi incorporada pelo grupo, apesar do predomínio de uma levada punk nas primeiras composições.
O ano seguinte foi fundamental para a banda. Enquanto eles preparavam “Unknown Pleasures”, seu primeiro álbum, começava na Inglaterra um longo período de domínio político conservador com a ascensão ao poder de Margaret Thatcher. Além disso, o mundo vivia sob a ameaça de um conflito nuclear entre EUA e União Soviética, num dos momentos tensos da Guerra Fria (em dezembro de 79, a União Soviética invadiria o Afeganistão, o que elevaria ainda mais os medos de um conflito generalizado). Cercado por perspectivas sombrias, que pareciam tornar realidade o lema “no future” do punk, e vivendo em um ambiente social carregado de pessimismo e medo, o Joy Division produziu um disco visceral com letras sobre controle, dominação e fuga. O crítico de música Jon Savage escreveu em julho de 1979, na revista Melody Maker, que os temas das canções e a forma como o álbum foi produzido refletiam com perfeição os espaços vazios e lugares escuros de Manchester. Para Savage, Ian Curtis com seus vocais expressivos apresentava uma performance ao vivo em que parecia possuído por demônios, dançando descoordenadamente na “velocidade da luz”.
Figura central do Joy Division, Ian Curtis sofria de epilepsia e depressão. Na opinião dos que conviveram com ele de perto, seus problemas neurológicos provavelmente haviam sido mal diagnosticados e não receberam um tratamento apropriado. Além disso, segundo sua esposa, no livro “Touching from a Distance”, que inspirou o filme “Control”, o tímido Curtis nutria uma profunda fascinação por artistas que morreram jovens e passava horas pensando e lendo obras dos escritores J.G. Ballard e William Burroughs.
Em depoimento à revista britânica Mojo em 2007, Peter Hook, ex-baixista do Joy Division e do New Order, afirma que Ian Curtis foi ele próprio seu pior inimigo por conta de sua doença: “Como dizer para o líder de uma banda de rock que ele deve ir para a cama cedo e não beber”? Curtis se rebelou contra as recomendações médicas e os avisos dos companheiros de banda e cada vez mais tinha uma performance no palco a la Iggy Pop. Só que Iggy não era epilético, enfatiza Hook.
A obsessão de Curtis pelo lado negro da vida aliado ao seu talento para escrever sobre desespero e separações renderam letras com um lirismo que fizeram a crítica especializada colocá-lo entre os idolatrados poetas pop. No contexto social e histórico em que viveu, Curtis alimentou-se do negativismo da filosofia punk e junto com seus companheiros do Joy Division estabeleceu algumas das tendências do pós-punk na cultura jovem.
Ao lado da capacidade poética de Curtis, a inovação musical trazida pelos demais integrantes do Joy Division com a inserção de teclados, sintetizadores e uma nova atmosfera no rock que definiria os anos 80 aparecem mais intensamente no disco “Closer” lançado em junho de 1980, algumas semanas após o suicídio do vocalista. A crítica publicada pela revista britânica New Musical Express, logo após o lançamento, retrata “Closer” como um registro magistral, como uma obra que trata de vida e morte, como um sinal da satisfação que era se viver em tempos que faziam as pessoas produzirem músicas como aquelas.
Além da construção de um estilo gótico para o rock, a partir das letras de Ian Curtis e da sonoridade desenvolvida por Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris, os dois álbuns do Joy Division trouxeram elementos importantes que ajudaram a renovar a cara do rock e da cultura pop na década seguinte.