Depois que João Gilberto apareceu tocando no LP “Chega de Saudade”, o violão nunca mais seria visto da mesma forma. Considerado na época um instrumento ligado à malandragem e ao morro, saiu definitivamente da marginalidade e virou um tipo de passaporte para a modernidade. Ganhou espaço na sala das famílias das classes média e alta, ao lado do piano e do acordeon, que até então reinavam absolutos como símbolo de bom gosto musical.
![]() João Gilberto inventou uma nova maneira de tocar violão, quase impossível de ser acompanhada |
Imediatamente não só músicos como também os curiosos tentaram aprender aquela nova forma de tocar. Mas logo viram que não seria uma tarefa nada fácil, pois a batida que “simplificava” o samba, nada tinha de simples.
Turíbio Santos, um dos mais importantes violonistas brasileiros, descreve que uma das experiências mais curiosas que teve foi tentar acompanhar João Gilberto: “Não foi com ele ao vivo. Na realidade foi acompanhar uma gravação do cantor. Do tipo passo a passo. Vamos imaginar você seguindo as pegadas de alguém na areia e colocando seus passos exatamente em cima dos passos da pessoa seguida. Assim, descobri primeiro a harmonia do João. Precisa, impecável, com soluções indiscutíveis. Trabalho de ourives. Depois desvendei (ou tentei) o ritmo. Os problemas foram se complicando. A invenção do João é imbatível e o pior: sua execução é de uma perfeição que beira as raias do impossível. Maior surpresa ainda: ele extrai mensagens polifônicas (várias vozes) do seu violão, como se cada corda fosse tocada por um instrumentista diferente”.
O maestro e pesquisador da obra de João Gilberto, Aderbal Duarte, completa: “João sintetizou no seu violão várias sonoridades brasileiras, dos graves do violão de sete cordas aos agudos do cavaquinho”. E para complicar a coisa um pouco mais, ele afirma que "não existe uma batida de João, mas várias batidas. É possível isolar quatro ou cinco mais importantes, reincidentes. Mas muitas vezes ele usa pedaços delas. Então, o que há são células rítmicas".
Mas, além do violão, a voz de João Gilberto causou um enorme alvoroço, quando o LP “Chega de Saudade” foi lançado. Ao cantar baixinho, de forma sussurrada, intimista, criou um novo estilo vocal. Sem excessos, minimalista, sua performance contrastava totalmente com o vozeirão típico do canto lírico, considerado obrigatório para alguém que quisesse fazer sucesso naquela época. E ainda por cima ele parecia estranhamente desafinado. O músico e professor Lucas Robatto afirma, com base na pesquisa do maestro Aderbal Duarte, que a estética vocal de João Gilberto “baseia-se primordialmente na adaptação da música às capacidades vocais naturais do intérprete. João nunca força sua voz (nem no que se refere ao registro – grave ou agudo, nem ao volume). Ele aproxima o máximo possível o canto da voz falada – diferentemente da voz ‘empostada’ do canto lírico. João modifica as tonalidades originais das músicas que interpreta para permitir a adaptação ao seu registro vocal”.
Ainda segundo Robatto, “qualquer pessoa que tenha tentado cantar uma melodia junto com João Gilberto deve ter percebido que isto não é uma tarefa simples”. Para ele, isso acontece porque o artista faz uma condução melódica livre, adiantando-a ou a atrasando, com o objetivo de aproximar o ritmo da canção do da linguagem falada, mesmo quando isso significa fugir ao da melodia original.
Ao integrar sua voz e violão, sem que um se sobreponha ao outro, João Gilberto criou uma sonoridade original e única. Segundo a socióloga e antropóloga Santuza Cambraia Naves, “uma das novidades que caracterizam a bossa nova é a maneira de lidar com a voz e o violão. Se tradicionalmente o violão era relegado à posição de acompanhamento vocal, João Gilberto fez com que voz e instrumento atuassem no mesmo plano, criando uma linguagem intimista. E a voz modulada em um registro despojado combina à perfeição com a performance do banquinho e violão inaugurada por ele.”
Para Edinha Diniz, pesquisadora da música de João Gilberto, inúmeras outras contribuições devem ser ainda destacadas na obra do artista: “reduzir a bossa nova à batida é simplificá-la e engessá-la. É deixar de fora a sonoridade nova e original, a polirritmia voz/violão, os deslocamentos de acordes na sua novidade harmônica, a sincronização excepcional, o moto-contínuo, o pedal, o fraseado entre os acordes, a mixagem voz/violão, o som atuando sobre o tempo, o legato, a declinação do swing e mais e mais e mais inúmeros elementos que fazem com que ouvir o som de João Gilberto seja uma experiência estética única”, diz ela.
Longe de se esgotarem as possibilidades de análise teórica sobre a obra de João Gilberto, elas apenas parecem reforçar a complexidade da sua contribuição. Músico que, com seu projeto pessoal de inovação, conseguiu criar uma estética que se tornou universal. Mas, que, antes de tudo, continua a sensibilizar várias gerações para o prazer de ouvir música brasileira, como bem resume o escritor e compositor Nelson Motta: “em 1959, João Gilberto era um sucesso nacional, era adorado e detestado, acusado de desafinado e de afeminado, celebrado como o inventor de um novo gênero musical. Eu o ouvia apaixonadamente como o criador de uma maneira nova de cantar e tocar, com um mínimo de voz e um máximo de precisão, com harmonias e ritmos que refinavam e sofisticavam qualquer canção”.