A trajetória de João Gilberto: do sertão ao Rio de Janeiro

João Gilberto nasceu em 1931 no sertão da Bahia já dando sinais de ter um ritmo diferente. Enquanto a maioria dos meninos brincava na beira do rio São Francisco, ele só queria saber de música. Cresceu ouvindo samba, jazz e tocando violão, instrumento que seria seu companheiro inseparável na busca pelo ritmo perfeito. Logo que atingiu a maioridade, foi atrás das oportunidades surgidas no pós-guerra que as metrópoles brasileiras poderiam oferecer.

Getz / Gilberto
Álbum Getz/Gilberto (1964) tornou João Gilberto e a bossa nova sucessos mundiais e rendeu dois Grammys ao cantor, de melhor intérprete e violonista


Iniciou sua carreira em 1949, em Salvador, como cantor da rádio Sociedade da Bahia, inspirado no vozeirão de Orlando Silva, o Cantor das Multidões. Sua performance, dentro deste estilo, conseguiu chamar atenção no Rio de Janeiro, no início dos anos 50, o que lhe garantiu um convite para cantar no grupo vocal Garotos da Lua, que se apresentava na Rádio Tupi. Gravou dois discos com eles, mas logo foi convidado a se retirar, ao demonstrar um estilo pessoal que lhe renderia a fama de excêntrico por toda a sua carreira. Em 1953 teve sua primeira canção “Você Esteve com Meu Bem?” gravada pela cantora Marisa, mas sem conseguir muito sucesso. Em um período difícil, sem trabalho, sem dinheiro e não muito satisfeito com a música que fazia, João Gilberto acabou deixando a cidade.

Depois de alguns anos longe do Rio de Janeiro, período em que aperfeiçoou sua técnica e seu estilo, voltou disposto a mostrar o resultado de todo o seu investimento: uma batida de violão e uma forma de cantar diferentes. A cidade já era então um dos principais centros urbanos do país, graças à política de industrialização promovida pelo presidente Juscelino Kubitschek. Lá encontrou uma efervescente vida cultural promovida por artistas profissionais e jovens músicos amadores de classe média, em busca de novas referências culturais que refletissem o estilo de vida moderno daqueles “Anos Dourados”. Para isso, eles reuniam-se em bares, clubes e apartamentos para ouvir e tocar, principalmente o jazz, música americana considerada de vanguarda, difundida pelos meios de comunicação de uma nascente indústria cultural.

Foi em um apartamento da zona sul carioca que João Gilberto teve a oportunidade de mostrar a nova batida do seu violão, tão insistentemente buscada durante anos por ele. Imediatamente atraiu atenção. Mas foi ao se apresentar para o compositor e pianista Tom Jobim, que também procurava uma nova forma de se expressar musicalmente na época, que conseguiu fazer sua batida ser incluída em uma das faixas do LP "Canção do Amor Demais". Cantada por Elizeth Cardoso, no mais autêntico estilo vocal da época, a interpretação da canção “Chega de Saudade” não agradou João Gilberto. Ele queria mostrar não só a sua novidade rítmica, mas também seu novo jeito de cantar. Mesmo assim, aquela forma diferente de tocar samba conseguiu chamar a atenção do público e principalmente da gravadora Odeon.

Em 1959, teve a chance de lançar um LP não só com “Chega de Saudade”, mas também com outras composições de Tom Jobim, além de “Bim Bom”, de sua autoria, sambas tradicionais e músicas populares da década de 30, todas tocadas dentro da sua concepção musical. Aí sim aquela nova forma de cantar e tocar virou um sucesso. A partir da nova estética musical criada por João Gilberto, um grupo de músicos passou então a produzir a bossa nova, a trilha sonora dos “Anos Dourados”.