Ivete Sangalo: canções para pular e amar

Apesar de sua origem estar ligada à cultura negra baiana, o que poderia permitir a abordagem de aspectos regionais, tradições, questões sociais, raciais etc., o axé music passa longe de tais temas, assim como também as composições criadas ou interpretadas por Ivete Sangalo durante a sua carreira. Música com um ritmo contagiante, assumidamente feita apenas para entreter, divertir e dançar, ela canta letras de uma Bahia idealizada, onde todas as pessoas são felizes e vivem em uma eterna festa de Carnaval. Se, por acaso, houver alguma dor ou tristeza causada por amor, por exemplo, basta cair na folia que tudo se resolve.

Assim, fazendo jus ao gênero, a música “Adeus Bye Bye”, do primeiro álbum da Banda Eva, com o vocal de Ivete Sangalo, virou sucesso em 1994, dando a receita de como acabar com uma típica dor-de-cotovelo pulando em um bloco de Carnaval:

Até chorar chorei não pude suportar
Ao ver se acabar todo amor que lhe dei
E pra curar então
O pobre coração

Eu vou sair no ilê
Vou me esquecer de você no meio da multidão
Eu vou com o negro mais lindo
Desfilar na avenida e me matar de paixão


Com “Carro Velho”, de sua autoria, Ivete Sangalo mostrou sua capacidade de compor refrões fáceis, que “colam” no ouvido, no estilo “música para tirar os pés do chão”, e confirmam a receita da axé music de muito ritmo e pouco compromisso com a qualidade das letras:

Cheiro de pneu queimado
Carburador furado
Coração dilacerado
Quero meu negão do lado
Cabelo penteado
No meu carro envenenado...

Eu vou, eu vou, então venha
Pois eu sei
Que amar a pé, amor
É lenha...


Com essa mesma receita acrescida de um autêntico estilo ”puxadora de trio elétrico” que a consagrou, a cantora fez sucesso com a música “Empurra, Empurra”, do seu segundo álbum solo, “Beat Beleza”, o que dá uma idéia aos não-iniciados nas aventuras do Carnaval do que os foliões que pulam atrás do trio-elétrico enfrentam em sua peregrinação em busca da “felicidade”:

Tá um Empurra-Empurra aqui
Mas tá gostoso
Melhor ainda
É pular no meio do povo...

Ôi! Ôi! Ôi!
Deram um pisão no meu pé
Nem quero saber quem foi...

Embalou! Embala! Embalou!
Não pára, não pára
Não pára, não pára...


Numa trajetória de interpretar canções que não primam pela qualidade das letras, pode até ser considerado um desvio de percurso a gravação da música "Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim", de autoria de Herbert Viana, dos Paralamas do Sucesso, como mostram alguns de seus versos:

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração


Tanto era um desvio, que a recaída veio com “Céu da Boca”, do álbum “MTV ao Vivo” de 2004, na qual a cantora mostra que faz parte da lista de bandas de axé que fazem sucesso com letras de duplo sentido, como na estrofe:

Eu quero beijar a sua boca louca
Eu vou enfiar uva no céu da sua boca, eu vou enfiar uva no céu da sua boca
E aí chupa toda
Disse toda
Chupa Toda!

Neste caso, ela contou inclusive com a participação especial do cantor, compositor e Ministro da Cultura Gilberto Gil. Com esse tipo de canções, Ivete Sangalo reanimou a axé music quando o gênero estava comercialmente em declínio. A receita que seguiu foi a de cantar uma visão bem simples da felicidade, do amor e do Carnaval, recheada de duplos sentidos e muita erotização. Nada diferente do que boa parte da axé music já havia feito.