Ivete Sangalo: musa do axé e do marketing

Ivete Sangalo resolveu soltar sua voz profissionalmente nos barzinhos de Salvador no começo dos anos 90. Mas sua projeção nacional aconteceu quando ela foi convidada a ser a vocalista da ressuscitada Banda Eva, que havia feito sucesso com seu frevo elétrico nos anos 80 liderada por Luis Caldas. No entanto, a volta da Banda Eva na década de 90 já ocorreu sob o rótulo da axé music, que encontrou um terreno econômico e cultural fértil para seu sucesso.

Ivete Sangalo e grupo
Foto: Fabio Motta/AE
Apresentação do show no Estádio do Maracanã (RJ) em 2006

Com o Plano Real, a economia brasileira era estável, houve aumento do poder de compra, o mercado fonográfico estava em crescimento, os CDs substituíram definitivamente os discos de vinil no mercado, e passaram a ser vendidos em lojas de departamento a preços mais baixos, além das vendas de aparelhos de CD-players terem explodido. A prosperidade econômica e a liberdade política do período fizeram surgir uma espécie de onda nacionalista, que favoreceu o consumo de produtos brasileiros, inclusive a música. No campo artístico, os gêneros que haviam dominado o cenário musical na década de 80 e na virada para os anos 90, como o pop-rock do Legião Urbana, Kid Abelha e Titãs, o romântico brega de Wando e Rosana e o sertanejo-pop de Leandro e Leonardo, pareciam não ter força para trazer mais novidades.

Foi então que o axé music, música de festa por excelência, estourou numa época em que parecia não faltar motivos para se comemorar. Assim, ao entrar para a Banda Eva, em 1993, Ivete Sangalo embarcou em um “trio elétrico” de prosperidade que favoreceu artistas, o mercado fonográfico, a mídia, o carnaval da Bahia, a indústria do turismo e tantos outros que perceberam a oportunidade de se juntar a este bloco festivo dos anos 90.

Em 1999, já conhecida pelo sucesso da Banda Eva e elevada à categoria de musa do axé e símbolo sexual pela mídia e pelo público, Ivete Sangalo iniciou sua carreira solo, impulsionada por megashows e apresentações em trios elétricos por todo o país, promovidos pela sua recém-criada empresa de produção, desde então a responsável pela administração de sua carreira.

No seu primeiro álbum solo em 1999, “Ivete Sangalo”, já utilizando a mistura de gêneros axé, forró, MPB, reggae e samba, que caracterizaria seu estilo, estourou também como cantora romântica, embalando milhares de casais pelos quatro cantos do país, com a música “Se eu Não te Amasse Tanto Assim”, de autoria de Herbert Vianna, líder da banda Paralamas do Sucesso.

Em 2002 começou a demonstrar a sua vocação empresarial ao despontar como fenômeno de mídia, ao transformar a música “Festa”, do CD homônimo, em hino do Réveillon, do verão, do Carnaval e da conquista do pentacampeonato de futebol, o que incluiu desfilar com a seleção brasileira em um trio elétrico em Brasília, após a Copa do Mundo. Em 2004, seu DVD da série “MTV Ao Vivo”, alcançou a maior vendagem no país com 300 mil unidades, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD). Em 2007, resolveu novamente investir em uma superprodução musical, que a fez superar seu recorde anterior ao vender 550 mil DVDs do show “Ao Vivo no Maracanã”, o que lhe garantiu o primeiro lugar em vendas de DVD no Brasil e de DVD musical da gravadora Universal Music em todo o mundo. Nada mal para a musa de um estilo que parecia ter esgotado todas as suas possibilidades.

Apesar de ainda se autodenominar uma representante do axé music, a cantora não depende mais deste rótulo para continuar em alta. Ivete Sangalo é hoje uma marca valiosa. Sua imagem, muito bem construída, está ligada a atributos como alegria, festa, ritmo, sol, saúde, família e musicalidade, fazendo dela uma das garotas-propaganda mais requisitadas da atualidade. Do alto da sua versatilidade, já participou de campanhas publicitárias de grandes empresas nacionais e multinacionais, vendendo de sandálias a tecnologia. Sua empresa, antes criada para gerenciar apenas a sua carreira, hoje atua em diversos segmentos do marketing voltados ao entretenimento e ao mercado corporativo, o que inclui o gerenciamento de outros artistas baianos (Netinho, Luiz Caldas, Margareth Menezes, Banda Araketu), uma gravadora de discos, uma produtora de DVDs, uma agência de marketing promocional, a realização de eventos corporativos e não-corporativos, a venda de ingressos e abadás de blocos carnavalescos, o que lhe rende um faturamento anual de R$ 40 milhões, segundo projeções da revista IstoÉ Dinheiro para 2007.