A música hip-hop

Kool Herc (Clive Campbell) se tornou o fundador do hip-hop ao se transferir dos grafites para as picapes. Uma de suas primeiras apresentações memoráveis foi em uma festa organizada por sua irmã. Os panfletos da festa mencionavam Herc como DJ. O nome dele era conhecido como grafiteiro, por isso muita gente apareceu - muitos apenas para ver o famoso Kool Herc [fonte: Gross].

Cantores de hip hop
Fotos International/Getty Images
Run-DMC. no American Music Awards, nos anos 80. Da esquerda para a direita, Joe Simmons (Run), Jason Mizell (Jam Master Jay, 1965-2002) e Darryl McDaniels (DMC).

Os convidados logo descobriram que Herc não se parecia com os demais DJs. Não se limitava a garantir música constante. Observando o pessoal, Herc percebia que certos trechos de música eram mais dançantes. As pessoas esperavam por esses trechos para entrar na pista. Para resolver o problema, Herc usava duas picapes e duas cópias do mesmo disco. Alternava entre as duas, repetindo o mesmo trecho da canção. A prática se tornou conhecida como breakbeats. Os brindes de Herc também animavam a moçada - e com exortações como “rock on my mellow”, ele encorajava o pessoal a não parar de dançar [fonte: Hebdige].

Com o tempo, ser DJ se tornou mais difícil e passou a requerer mais atenção - a ponto de Herc ter pouco tempo para os brindes. Os MCs (mestres de cerimônia) Coke La Rock e Clark Kent apareceram para ajudar (mais tarde, passariam a ser conhecidos como The Herculoids). Coke La Rock expandiu os brindes a poemas mais completos, e assim nasceu o rap. Coke La Rock, Clark Kent e até mesmo Herc começaram a acrescentar dança ao espetáculo. A dança free-style era popular e nas passagens instrumentais longas os dançarinos se soltavam. Foram os primeiros b-boys - termo cunhado por Herc (falaremos mais sobre a dança na seção específica sobre esse movimento do hip-hop).

Logo a cena dos DJs começou a explodir com novos talentos. Afrika Bambaataa (Kevin Donovan) e Grandmaster Flash (Joseph Saddler) são vistos como padrinhos do hip-hop. Bambaataa, antigo membro da gangue de rua Black Spades, era testemunha direta do efeito da vida de gangue sobre sua comunidade. Quando criou a Zulu Nation, o plano de Bambaataa era livrar as comunidades da violência e das drogas e substituí-las pelos elementos positivos do hip-hop. Hoje, ele continua a ser um embaixador da cultura hip-hop.

Inspirado pela coleção de música de seu pai, Grandmaster Flash aproveitou seu conhecimento de eletrônica para fazer história como DJ, levando diversas contribuições para o hip-hop.
  • Punch phrasing é uma prática parecida com o breakbeat mas pode usar dois discos completamente diferentes. Dick Herbige escreveu, em “Cut'n'Mix”, que “o dj chega a um ponto determinado em uma picape enquanto o disco da outra ainda está tocando. O punch funciona no hip-hop como a pontuação em uma sentença e pode ser usado para acentuar o ritmo e animar os dançarinos”.
  • Scratching envolve mover o disco para frente e para trás enquanto ele está tocando - a agulha está no sulco, por isso o disco não é riscado de fato.
  • O beat box difere do beatboxing ou do beat box humano, uma forma de percussão vocal popularizada por Fat Boys, Doug E. Fresh e Biz Markie. Flash criou o beat box ao conectar uma bateria eletrônica à sua aparelhagem, “para que as pessoas não soubessem onde parava a música e onde eu começava” [fonte: George].
Esses e outros pioneiros conduziram o hip-hop de casa em casa e em festas de rua ao longo dos anos 80. Então, com as primeiras gravações de música hip-hop, a cena se expandiu. O primeiro programa de hip-hop no rádio, “Rap Attack”, de Mr. Magic, estreou na WBLS-FM, em Nova York, em 1983. Os MCs se tornaram figuras mais conhecidas e começaram a substituir os DJs como líderes de grupos. A intenção da música também começou a mudar - como veremos na próxima seção.