História do hip-hop

Antes de falar como nasceu o hip-hop, algo que a maioria dos observadores concordaria que aconteceu nas ruas de Nova York, é preciso inicialmente acompanhar os percursos de diversos estilos e gêneros musicais - quase como uma árvore genealógica musical. As raízes do hip-hop podem ser encontradas em diversos ritmos musicais de influência africana. O gospel negro dos Estados Unidos, o folk, o blues, o jazz e o R&B formam cada qual um galho dessa árvore, da mesma maneira que o calipso, a salsa, a soca, o ska, o reggae e outros estilos afrocaribenhos.

Cantores de hip hop
Scott Gries/Getty Images
Afrika Bambaataa (esquerda) e Kool Herc, pioneiros do hip-hop,
no lançamento de "Hip-Hop Won' Stop: The Beat, The Rhymes, The Life”, pela Smithsonian Institution, em 2006

O percurso que conduz às origens do hip-hop não é linear. Ele percorre uma trajetória complicada, que inicia com os escravos africanos e termina no South Bronx, bairro de Nova York. Os escravos vindos da África Ocidental para a América do Norte e América do Sul levaram consigo diversas tradições orais e musicais. Essas tradições se tornaram parte integrante do uso da música como forma de resistência e de rebelião.

O uso religioso dos tambores na África Ocidental se reuniu à narrativa oral e ao griotismo (uma tradição oral que preservou e transmitiu histórias locais e familiares importantes por meio da poesia e da música), e isso resultou na criação dos spirituals e baladas. O chamado e a resposta entre a congregação e o pastor se transferiram da igreja para a música. Com o tempo, o jazz, o blues e o folk permearam o sul dos Estados Unidos. O bebop e o doo-wop chegaram às rádios. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial (em inglês), o jazz, o blues e o R&B norte-americanos chegaram ao Caribe, quando havia soldados norte-americanos na Jamaica.

Enquanto isso, na Jamaica e em muitas outras regiões caribenhas, disk jockeys (DJs), com grandes sistemas de som portáteis, criavam discotecas temporárias nas ruas ou em espaços alugados. O mercado para esses clubes itinerantes de dança era muito competitivo. Os DJs começaram a desenvolver maneiras de superar seus rivais; uma delas era conhecida como brindar, ou toasting. Os brindes eram falas escritas ou improvisadas sobre o fundo sonoro de uma canção. Ocasionalmente, esses comentários incluíam críticas a DJs rivais.

A prática terminou conduzindo a dois tipos de reggae: o talk over e o dub [fonte: Hebdige]. As gravações de talk-over envolviam DJs elogiando uma determinada canção. Os dubs eram interpretações mais alteradas de canções. Incluíam talk-overs e efeitos sonoros, como ecos, reverberação e intensificação dos graves e agudos. Muitos artistas começaram a incluir uma versão dub das canções no lado B de seus compactos. As versões dubs eram em sua maioria instrumentais, contendo apenas parte das letras, e mais comentários falados.

Versioning

Versioning, no reggae, é um processo semelhante ao sampling no hip-hop. No versioning, alguém cria e grava uma canção. A canção ganha popularidade - a ponto de levar outros artistas a lançar dezenas, até centenas de versões (conhecidas como covers). Um exemplo é "Under My Sleng Teng”, uma canção de Wayne Smith. Mais de 230 versões da canção foram gravadas nos primeiros 12 meses depois de seu lançamento [fonte: Hebdige]. No sampling, um artista extrai uma amostra (sample) de uma gravação alheia e insere partes dela em sua canção nova.
 


Assim, de que maneira isso tudo conduz ao hip-hop? A resposta está na história de um jovem jamaicano chamado Clive Campbell. Em 1967, aos 13 anos, ele se mudou da Jamaica para o bairro do West Bronx, em Nova York [fonte: Gross]. Levou com ele o conhecimento das discotecas móveis, dos brindes dos DJs e das gravações de talk-over e dub de sua terra. Esse conhecimento ajudou Campbell, mais conhecido como Kool Herc, a estabelecer a base do movimento hip-hop.

Mas antes que comecemos a falar do desempenho de Herc nas picapes, vamos conhecer algo que ele passou certo tempo fazendo antes de se mudar para Nova York - o tagging, ou grafite.