![]() Reprodução Obra do ex-grafiteiro Jean-Michel Basquiat ilustra capa de livro sobre o artista |
Além disso, o auge do grafite como um movimento anárquico ligado aos garotos pobres já havia passado. O começo dos anos 80 trazia uma nova onda radical chic, onde os yuppies, jovens executivos do mercado financeiro, começaram a se interessar por investir em arte e ajudaram a provocar um boom nesse segmento. Quando Basquiat e outros grafiteiros aderiram ao mundo glamouroso das artes plásticas, eles já haviam se distanciado do radicalismo do grafite. Mas, apesar de não mais colocarem suas marcas em prédios e espaços públicos, esses grafiteiros levaram para as galerias de arte e exposições muito da estética e da ideologia do grafite de rua.
O grafite influenciou também gerações de artistas que não fizeram parte do movimento de arte de rua. Keith Haring foi um deles. Sua obra e também sua atitude incorporaram muitas das idéias do grafite. Como artista e ativista, ele buscou levar sua arte para fora das galerias e dos museus, para espaços alternativos e independentes como as estações de metrô e os clubes noturnos. Em uma de suas mais famosas criações, “Radiante Baby”,há claras referências ao universo estético do grafite.
Além de Basquiat e Haring, desde os anos 80, outros artistas ligados ao universo do grafite têm se destacado não só nas paisagens urbanas, mas também em exposições e bienais de arte. Entre eles, está a dupla de artistas brasileiros “Os Gêmeos”. Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo participavam da cena do hip-hop paulistano no final dos anos 80 quando se interessaram pela arte do grafite. Desde então, das fachadas e viadutos paulistanos, seus grafites chegaram às galerias de arte e também aos muros das grandes cidades dos Estados Unidos, Alemanha, Austrália, China, Itália, Cuba, Japão, Grécia e Argentina, entre outros.
![]() Foto Alexandre Fukuda Fachada da Galeria Fortes Vilaça (SP) trabalhada pelos grafiteiros "Os Gêmeos" com sua marca registrada; a dupla teve suas obras expostas no local em 2006 |
Apesar de passar a fazer parte dos ambientes “oficiais” das artes plásticas contemporâneas, o grafite ainda mantém-se como uma arte de rua e transgressora. E continua a ser uma das formas mais acessíveis dos jovens expressarem-se artística e politicamente e, principalmente, de marcarem sua presença na imensa e diversificada paisagem urbana.
Ambos são expressões jovens que se manifestam nas ruas. Os dois vêem a cidade como uma imensa tela a ser pintada. Para fazer isso, eles usam praticamente os mesmos materiais. No entanto, pichação e grafite são considerados esteticamente diferentes. E apesar dos dois terem nascido na clandestinidade, enquanto a pichação continua a carregar uma conotação de vandalismo, o grafite já é reconhecido como uma forma de manifestação artística. A partir dos anos 90, muitas administrações municipais e proprietários de negócios, nos principais centros urbanos, inclusive no Brasil, destinaram alguns espaços públicos e fachadas de prédios comerciais e fábricas para que os grafiteiros desenvolvessem suas obras. Mas, os limites entre pichação e grafite são tão tênues e polêmicos que muitas confusões continuam a alimentar essa discussão. Em junho de 2008, alunos do Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo, picharam a fachada da instituição. O ato seria parte do trabalho de conclusão de curso de um dos alunos e teria a intenção de propor rediscutir o conceito de arte. Eles acabaram presos e o autor da idéia, expulso. No começo de julho, também em São Paulo, uma empresa contratada pela Prefeitura, para limpar as pichações pela cidade, apagou os grafites que estavam em um imenso mural numa das principais avenidas da cidade. Entre elas, um trabalho da dupla de grafiteiros “Os Gêmeos”, que têm grafites nas fachadas e muros de Nova Iorque, Londres e outros importantes centros urbanos no exterior. A Prefeitura alegou que foi sem querer. Seja grafite ou pichação, essa ação é considerada crime no Brasil pela Lei dos Crimes Ambientais, com pena de prisão de três meses a um ano e multa. |