O grafite contemporâneo

Em 1971, o jornal The New York Times percebeu que um nome começava a dominar as ruas de Manhattan. Um adolescente de 17 anos chamado Demetrius vinha “etiquetando” vários prédios da cidade com seu apelido: Taki 183 (porque ele morava na 183rd Street). Um verão antes, ele havia tido a idéia de pichar seu apelido em caminhões de sorvete que circulavam pela cidade. Mas, naquele ano havia começado uma “guerra” silenciosa entre alguns jovens que resolveram marcar os lugares mais altos ou com maior visibilidade com seus nomes. Apesar da dimensão que o fenômeno tomou em Nova Iorque, segundo Justin Longo, em um estudo para o New Century College, a moda da pichação de forma sistemática havia começado alguns anos antes nas ruas da Filadélfia, que teve vários de seus prédios etiquetados por nomes como Cornbread e Cool Earl.

Os Gêmeos
Fotos: Alexandre Fukuda
Obras dos grafiteiros "Os Gêmeos" em exposição em São Paulo em 2006


Logo, a disputa por mais e melhores locais para deixar uma marca levou a uma competição também pelas ilustrações mais criativas. As assinaturas pichadas começaram a dar lugar a imagens coloridas. O desafio começou a deixar de ser etiquetar os locais mais inacessíveis e sim transformar a paisagem urbana em um espaço para intervenções com os mais inspirados desenhos e letras artísticas. O fenômeno chegou aos trens do metrô. Os vagões e às vezes o trem inteiro viraram suporte para as idéias dos grafiteiros. Assim, as criações passaram a circular por toda a cidade, consolidando o grafite como uma arte nômade e ampliando a visibilidade das obras dos grafiteiros. Várias medidas de segurança e repressão começaram a ser adotadas pelas autoridades que consideravam o grafite como vandalismo, o que tornou cada vez mais perigosa e difícil a ação dos grafiteiros.

Antes de virar uma expressão artística, o grafite foi principalmente uma expressão política. Ele sempre esteve presente como marca de protesto seja no cotidiano dos cidadãos desde a Antiguidade ou em manifestações de trabalhadores e jovens, como as que tomaram as ruas de Paris em maio de 1968. Mas, a partir da virada dos anos 60 para os 70, o grafite contemporâneo se desenvolveu como uma manifestação artística radical e de protesto dos jovens que moram nos grandes centros urbanos. Ele emergiu movido pela impossibilidade de muitos adolescentes se expressarem nos suportes e estilos artísticos reconhecidos “oficialmente”, pela insatisfação dos jovens com as suas precárias condições de vida e pela necessidade deles de afirmação social.

A idéia modernista de dessacralização da arte e do rompimento dos limites entre cultura erudita e popular, radicalizada com a Pop Arte nos anos 50 e 60, atingiu uma forma mais radical ainda com a arte do grafite. De baixo custo, sem precisar respeitar cânones estéticos, apesar da clara influência dos estilos modernistas (futurismo, dadaísmo, surrealismo), e acessível a qualquer um com coragem para enfrentar sua ilegalidade, o grafite possibilitou uma nova percepção da arte. Com ele, a arte foi efetivamente para a rua e interagiu com o espaço público e a dinâmica da vida urbana. Ela não estava mais restrita ao privado, a galerias e museus.

Grafite x pixação
istockphoto.com © Jorge Delgado

Um dos fatores que contribuiu para a expansão do grafite na Nova Iorque dos anos 70 foi sua integração ao movimento hip-hop. A manifestação cultural dos jovens pobres e negros, para saírem do anonimato e se expressarem, incluía a música, com o rap e as inovações dos DJs e MCs , a dança, com o break, e a arte visual, com o grafite. Após virar uma febre nas ruas nova-iorquinas nos anos 70, o grafite espalhou-se por outros centros urbanos do planeta. Em cerca de uma década a arte transgressora, de rua, feita com spray e de resultados imediatos foi descoberta por críticos de arte e marchands. No começo dos anos 80, os trabalhos dos grafiteiros invadiram as galerias de arte e ganharam exposições. Naquele momento, alguns grafiteiros como Jean-Michel Basquiat e artistas inspirados pelo grafite como Keith Haring foram reconhecidos como inovadores artistas plásticos e a arte do grafite atingiu um novo patamar.

A técnica do estêncil

O uso de estêncil é uma das técnicas mais utilizadas pelos grafiteiros em São Paulo e outros centros urbanos. A partir de uma matriz, desenhada e recortada em um papel suficientemente duro ou outro material, cria-se uma espécie de fôrma ou máscara. Ela é então colocada na superfície a ser grafitada e sobre ela aplica-se a tinta com rolo ou em spray. Muitas vezes, os detalhes são complementados à mão livre. O uso do estêncil tornou-se bastante popular uma vez que é uma técnica rápida e que facilita a disseminação de uma marca pessoal do grafiteiro ou de um grupo. O estêncil ganhou sofisticação com o passar dos tempos, com a inclusão de recursos fotográficos para ampliação e montagem de obras mais complexas. Além disso, a arte de grafitar a partir de uma máscara evoluiu para os adesivos ou stickers, que são normalmente aplicados em telefones públicos e postes.