Festa pop da literatura

Flip

Parece até show de rock. Filas enormes para comprar ingressos, mais filas para pedir autógrafos e até gritinhos de fãs quando o ídolo passa. A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) poderia ser considerada um congresso de nerds, mas está mais para uma festa pop dos fãs da literatura. Desde 2003, o festival traz para um palco montado na cidade do litoral fluminense escritores famosos, nacionais e internacionais. Ali eles falam sobre suas obras, as obras dos outros e ainda costumam comentar os últimos acontecimentos da política internacional.

A idealizadora da Flip é a inglesa Liz Calder, uma das fundadoras da Bloomsbury, editora inglesa famosa por publicar os livros de Harry Potter. Calder, que já morou no Brasil e é uma apaixonada por Paraty, criou o festival nos moldes de outros famosos como o de Hay-on-Wye (em Adelaide), Harbourfront (em Toronto), e os de Edimburgo e Mântua.

A Festa Literária não nega as origens: a maior parte dos convidados internacionais são escritores britânicos e de ex-colônias. Delas já vieram os prêmios Nobel Nadine Gordimer (laureada em 1991) e J.M. Coetzee (2003), sul-africanos, além da norte-americana Toni Morrison (1993). Outro Nobel, o turco Ohran Pamuk, foi à Flip meses antes de receber o prêmio mais importante da literatura, em 2006. Mas além da coincidência geográfica, os convidados têm outra característica bastante comum: são ligados a grandes editoras nacionais.

Neil Gaiman
Reprodução
O britânico Neil Gaiman, autor de "Sandman",
"Stardust" e "Deuses Americanos", entre outros
sucessos nos quadrinhos, no cinema e na
literatura, é um dos destaques da Flip 2008

Nas ruas de pedra de Paraty também já passaram outros pesos-pesados da literatura internacional como Ian McEwan, autor de “Reparação”, que foi para as telas como “Desejo e Reparação”, Salman Rushdie, o autor anglo-indiano que foi condenado à morte pelo aiatolá Khomeini, Eric Hobsbawn, o historiador marxista considerado dos mais influentes do século passado, entre outros. Dentre os brasileiros, destacam-se as participações de Adélia Prado, Ana Maria Machado, Ariano Suassuna, Milton Hatoum e Ferreira Gullar.

As últimas edições da festa também refletiram a temperatura política dos anos pós-início da Guerra do Iraque. Em 2006, o polêmico Tariq Ali organizou uma abaixo-assinado contra o conflito. Em 2007, o inquieto jornalista britânico Robert Fisk, especialista em Oriente Médio, onde vive há 30 anos, arrancou aplausos da platéia ao espinafrar os governos de George W. Bush e do então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

O principal festival literário do país conta com um palco, que fica na chamada Tenda dos Autores. Ali acontecem as chamadas mesas, em que um ou vários escritores fazem suas palestras e respondem a perguntas da audiência. O clima é de tietagem, o que costuma deixar os autores à vontade. São raros casos como o de J. M. Coetzee, que surpreendeu o público que compareceu à mesa mais esperada da edição de 2007; o sul-africano apenas leu um trecho de um livro até então inédito, “Diário de um Ano Ruim”, se recusou a responder perguntas e foi embora.

Para atender os que não conseguiram ingressos para ver o autor cara a cara, a organização monta outra tenda, a da Matriz. Ali, um telão abriga centenas de pessoas ao mesmo tempo em que acontece a apresentação na Tenda dos Autores. A infra-estrutura conta ainda com um café, uma livraria e uma mesa em que os escritores costumam dar autógrafos no final de sua palestra. Aliás, não é raro encontrar os famosos andando pelas ruas da cidade, jantando em algum restaurante ou passeando de barco.

Mas a festa literária tem mais do que literatura. Todos os anos, o festival é aberto com um show de MPB. Paraty conta ainda com a OFF Flip, uma espécie de festival alternativo que ocorre ao mesmo tempo que o oficial, e a Flipinha. Além de mesas, bate-papos e lançamentos de livros, o Off Flip premia escritores iniciantes. Já a Flipinha é destinada ao público infantil, que pode participar de atividades lúdicas acompanhado de monitores. Outras apresentações, lançamentos e exposições costumam acontecer na Casa da Cultura, que se localiza no centro de Paraty.