Fernando Pessoa e seus heterônimos, por eles mesmos

Autor: 
Andrea de Barros

Fernando Pessoa concebia seus heterônimos não apenas como vozes poéticas, mas como indivíduos completos, com hábitos, fisionomias, tipos físicos e psicológicos específicos.

O primeiro deles, Alberto Caeiro, nasceu em 1889, em Lisboa, tendo passado praticamente toda a sua vida no campo, sem profissão definida. Perdeu pai e mãe precocemente, passando a viver com sua tia-avó. Sua educação formal limitou-se ao ensino primário, mas era um homem bastante sábio, tanto que se tornou o mestre de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e de Pessoa “ele mesmo”. Tinha olhos azuis, era louro e de aparência mais forte do que realmente era. Morreu em 1915, vítima de tuberculose. A Alberto Caieiro é atribuída a autoria dos poemas de “O guardados de rebanhos”.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

(Alberto Caieiro)

Já Ricardo Reis, o discípulo neoclássico de Alberto Caeiro, nasceu em 1887, no Porto. Educado num colégio jesuíta, formou-se médico e mudou-se para o Brasil, por ser monarquista, em 1919. Era moreno, forte e um pouco mais baixo que Caeiro (que tinha estatura média). Apesar de Fernando Pessoa nunca ter mencionado a data de sua morte, ela serviu de inspiração para outro grande escritor português, José Saramago, que escreveu “O ano da morte de Ricardo Reis” (1984), um belo exemplo de ficção sobre ficção.

Nada fica de nada.
Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

(Ricardo Reis)

Álvaro de Campos, considerado por Pessoa o mais histérico dos seus heterônimos, nasceu em Tavira, em 15 de outubro de 1890. É alto, magro, de cabelos lisos. Na infância, estudou em um liceu, mas depois foi enviado à Escócia, onde se formou em engenharia mecânica e naval. Após os anos de formação em Glasgow, voltou para Portugal e passou a viver em Lisboa.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Álvaro de Campos)

Bernardo Soares, como semi-heterônimo, não recebeu uma biografia completa, como seus pares. Pessoa dizia que Soares surgia quando ele estava cansado, quando a inibição e o raciocínio afrouxavam as rédeas e que, portanto, sua prosa era uma espécie de “constante devaneio”.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.
(Bernardo Soares)

Fernando Pessoa “ele mesmo”, no centro da farsa heteronímica, é, ao mesmo tempo, regente da orquestra de vozes poéticas, criadas por ele, e personalidade fictícia, já que seu estilo é tão inventado quanto os dos outros heterônimos. O eu-poético, para ser livre e expressar-se em todas as suas facetas, é sempre uma ficção, não só no caso de Fernando Pessoa, que evidenciou essa ficcionalidade do poeta de forma extraordinária, mas de todos os grandes poetas.

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

(Fernando Pessoa)