Fernando Pessoa: o paradoxo em forma de poesia

Mesmo antes de ter publicado sequer um livro, Fernando Pessoa já era considerado um mestre para muitos jovens escritores portugueses. Desde então, a repercussão de sua obra vem multiplicando-se de forma assustadora, ganhando, a cada dia, mais estudos críticos, pesquisas acadêmicas e novos e entusiasmados leitores, no mundo todo.

Toda essa comoção em torno do mito pessoano leva à questão: o que torna a poesia de Fernando Pessoa tão atraente diante de leitores de épocas e lugares tão diferentes?

Para Carlos Felipe Moisés, esse fenômeno se dá, entre outros motivos, pelo caráter reflexivo da poética pessoana:
(Fernando Pessoa) É um poeta que não se limita a expressar sentimentos, como é hábito em nossa tradição lírica, mas insiste em se questionar, e à realidade em redor, pondo em xeque, uma a uma, as aparentes verdades e valores em que se apóia a civilização que ainda é, substancialmente, a nossa.

O questionamento de si e do outro, dos conceitos de realidade, de ficção e da própria idéia de identidade está explicitamente presente na obra de Fernando Pessoa, desde a sua concepção heteronímica, esfacelada entre vários eu-criadores, até os temas e as formas apresentadas em sua poesia, marcada por paradoxos, contradições e impasses:
Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.
Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.
Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.

(Ricardo Reis)

No impasse entre colher ou deixar, entre agir e desistir, permanece estático o eu-lírico pessoano, diante de um destino que é soberano e indiferente às suas ações. Esse assombro do homem diante de um mundo que se transforma no ritmo acelerado da modernidade, levando-o ao desconhecido por vias pelas quais ele segue sem saber para onde, continua assombrando o leitor de hoje, permanece plenamente atual nos descaminhos da nossa pós-modernidade.

Para Leyla Perrone-Moisés, a resposta para a perenidade da obra de Pessoa nos dias atuais, o seu reconhecimento como “obra capital da modernidade”, vem também do paradoxo:
Apesar do tom geral de pessimismo, essa obra se caracteriza por uma inteligência, uma ironia e um humor que procedem de uma extraordinária vitalidade. Embora deixada em estado inacabado (e este é um de seus encantos), essa obra materialmente enorme, prosseguida ao longo de uma vida com uma espantosa persistência, é um investimento formidável de energia. Pessoa escreveu milhares de páginas para dizer que ele não era nada, que só fingia, que afinal nada valia a pena, inclusive e sobretudo o esforço de escrever. Esse paradoxo, e o paradoxo final de ter encontrado postumamente milhares de leitores, parece a última mágica executada pelo extraordinário prestidigitador que ele foi.