Fernando Pessoa e o modernismo

Autor: 
Andrea de Barros

Fernando Pessoa escreveu uma obra tão vasta que, até hoje, boa parte dela continua inédita. Isso se deve ao fato de que muitos de seus escritos estarem dispersos em jornais, revistas e até em cadernos ou folhas soltas, muitas vezes sem assinatura. Sem falar dos assinados por heterônimos e semi-heterônimos, que dificultam bastante o trabalho dos estudiosos que se dedicam a organizá-los para publicação.


Elvis e garotas
Reprodução
Coletânea de poemas de Alberto Caeiro, um dos
heterônimos de Fernando Pessoa, em edição publicada em inglês

Em vida, o poeta só teve um livro publicado em português, "Mensagem" (1934), além de duas coletâneas de poemas em inglês, “Antinous” e “35 Sonets” (1918), posteriormente relançadas em três volumes, acrescidas de “Inscriptions” e “Epithalamium”, sob o título de “English Poems” (1921). Mas sua participação em periódicos e revistas, na divulgação da literatura vanguardista em Portugal, foi intensa.

Em 1915, mesmo ano da morte de seu mestre-heterônimo Alberto Caeiro - “Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra do que sou em mim, na memória que conservo do que sou de morto…”, Pessoa funda a revista "Orpheu", com Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Luís de Montalvor, entre outros. Apesar de ter durado apenas dois números, "Orpheu" teve uma importância fundamental para a entrada dos movimentos de vanguarda literária em Portugal, provocando um grande impacto no cenário artístico e cultural lisboeta.

Depois de Orpheu, Pessoa continua publicando poemas e ensaios filosóficos, literários e políticos de seus heterônimos nas revistas "Portugal Futurista" (1917), "Contemporânea" (1922), "Athena"(1924), entre outras publicações voltadas para a divulgação da literatura modernista. Por meio dessas revistas, lidas não só em Portugal, mas também por literatos brasileiros (o primeiro número de "Orpheu" teve, como co-diretor, o poeta brasileiro Ronald de Carvalho), Pessoa tornou-se conhecido e admirado por escritores modernistas brasileiros, como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade (que publica “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, em 1951) e Cecília Meireles que, aliás, parece ter sido a primeira, entre os escritores brasileiros, a escrever sobre o poeta e a receber o livro “Mensagem” (1934), logo que este foi publicado.

Aliás, entre Meireles e Pessoa, ocorre um episódio bastante revelador da personalidade enigmática do poeta. Em 1934, Cecília Meireles, então casada com Correia Dias, amigo de Fernando Pessoa, viaja com o marido para Portugal e aproveita a estada em Lisboa para conhecer o grande poeta. Marcam um encontro em um café, no qual Cecília o espera por duas horas, em vão. Ao retornar ao hotel, ela encontra, à sua espera, um exemplar de “Mensagem”, deixado por Pessoa com uma dedicatória e a explicação de que não havia comparecido ao encontro porque o horóscopo que ele havia feito indicava que ele e Cecília “não eram para se encontrar”.

As faces misteriosas de Pessoa manifestavam-se não só na literatura, mas em ações inesperadas e indecifráveis como essa.