![]() Reprodução Fernando Pessoa aos seis anos de idade |
Nas antigas tradições orientais, os poetas eram considerados semideuses, dotados da capacidade de revelar nobres verdades e de criar universos de linguagem. Fernando Pessoa, à moda moderna e ocidental, chegou bem perto dessa criação poética divina por meio da heteronímia, uma forma de criar não só poesia, mas também personalidades poéticas independentes e completas.
Os heterônimos criados por Pessoa possuem suas próprias biografias e escrevem em estilos específicos, ao contrário de simples pseudônimos, que diferem de seus criadores apenas pelo nome.
A criação de personalidades vem da infância de Pessoa, que desde os seis anos conviveu com esses seres imaginários. Em carta a Adolfo Casais Monteiro, ele explicou essa inclinação criativa:
“Desde criança, que tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.”
O nascimento dos grandes heterônimos pessoanos se dá em 8 de março de 1914 – Fernando Pessoa descreve essa data como um “dia triunfal”, na qual escreve 30 dos 40 poemas de “O guardador de rebanhos”, de autoria atribuída a Alberto Caieiro. Caeiro torna-se o “mestre” dos próximos heterônimos, seus discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e do próprio Fernando Pessoa.
Enquanto Caeiro expressa um estilo bucólico, de homem sábio e sereno, seus discípulos corporificam dois pólos contrários. Álvaro de Campos é um poeta futurista, radical, que subverte as regras. Ricardo Reis tem um estilo neoclássico, profundamente triste, que busca a dominação do sofrimento por meio da elevação moral. Quanto a Fernando Pessoa “ele mesmo”, que, apesar de ortônimo, inclui a si próprio entre seus heterônimos, é possível encontrar semelhanças com cada um dos outros três, como se sua identidade se constituísse de partes de todos eles.
Além de Pessoa "ele mesmo" e da trindade heteronímica – Caeiro / Campos / Reis – o universo de personalidades poéticas inclui Bernardo Soares, um semi-heterônimo sem biografia completa e independente, e mais algumas dezenas de outros ainda pouco conhecidos do público, por terem sido apenas esboçados por Pessoa.