Drummond: entre o ser e o mundo, a poesia

Segundo Antonio Candido, no ensaio "Inquietudes na poesia de Drummond", a poesia drummondiana sempre se coloca como elo de ligação entre o Ser – as questões da existência, a metafísica – e o Mundo – as coisas, os fatos, os acontecimentos: “Este tratamento, mesmo quando insólito, garantiria a validade do fato como objeto poético bastante em si, nivelando fraternalmente o Eu e o mundo como assuntos de poesia”.

Quando atribui ao fato em si a qualidade de objeto de poesia, Drummond dispensa o uso da metáfora, figura essencialmente ligada à linguagem literária, principalmente à poética. A escrita é direta, nua e crua, como as coisas, as manifestações da natureza e os acontecimentos da vida o são, como em "Poema do Jornal", publicado na obra "Alguma Poesia" (1930):

O fato ainda não acabou de acontecer
E já a mão nervosa do repórter
O transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.

A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.


A intimidade com as cruezas do cotidiano faz parte do itinerário de Drummond não só como poeta, mas também como o excelente cronista que foi, durante os muitos anos nos quais colaborou para jornais, e como o funcionário público - chefe de gabinete do Ministério de Educação e Saúde. A estética drummondiana não desvia o olhar da realidade, ao contrário, ilumina-a sob pontos de vista diversos, contraditórios, que refletem a tensão entre o poeta, o pai de família, o funcionário do governo, o anarquista e todas as várias personas que habitam o escritor. Talvez seja essa uma das razões pelas quais qualquer tentativa de compreender a obra de Drummond por meio de esquemas didáticos e da divisão em fases estanques não funcione. O poeta social, politicamente engajado de "Sentimento do mundo" (1940) e "A rosa do povo" (1945), já dialogava com o poeta metafísico de "Claro enigma" (1951), que sempre conservou o sotaque anárquico, moderno, singularmente ímpar de Drummond.

Contos plausíveis
Reprodução
Em "Contos Plausíveis" (Editora Record) há uma coletânea de curtas histórias, poemas em prosa, escritos por Drummond


Enveredar pela vasta obra de Drummond e por sua biografia tão velada - Drummond sempre foi considerado tímido, indecifrável e refratário a qualquer abordagem de sua vida privada -, é lançar-se a um turbilhão de contrastes e contradições que traduzem os paradoxos que atormentam e estilhaçam a personalidade do homem na modernidade. Em "O poema da necessidade", publicado em "Sentimento do Mundo" (1940), o impasse humano diante das exigências da vida moderna é expresso de forma belíssima:

É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.


Na repetição monótona e pesada - como são monótonas e pesadas as obrigações cotidianas -, do “é preciso” de cada verso, seguido por necessidades grandiosas, como “salvar o país” e “crer em Deus”, combinadas às pequenices de “pagar as dívidas” e “comprar um rádio”, o poeta evidencia aos olhos do leitor o extremo absurdo de ideais contraditórios, aparentemente vitais e essencialmente banais, que cada indivíduo carrega em seus ombros. Esse indivíduo dilacerado, “retorcido”, angustiado diante de si e do mundo é tema recorrente na obra de Drummond.

Certamente, a longa trajetória de Drummond como funcionário público - no período de forte repressão ditatorial do governo Vargas -, contrastada ao concomitante fazer literário no qual sempre preservou sua independência intelectual e artística, serviu de laboratório para que o poeta experimentasse a vida em estado paradoxal, equilibrando-se no fio da navalha que separa as exigências concretas da existência das necessidades de reflexão e expressão do eu sensível, criador.

Drummond: o eu que contém o mundo

Desde o último quarto do século 20, Drummond é considerado, quase por unanimidade da crítica, um dos maiores poetas do Brasil, o poeta brasileiro por excelência. Mas sabemos que as pedras nesse caminho de consagração não foram poucas. Somente o talento e a força de caráter férrea do poeta explicam sua constância, sua determinação em não desviar-se do rumo de suas convicções. Hoje, a atração que Drummond exerce sobre os leitores, principalmente os jovens, permanece profunda e crescente, como se, apesar de o próprio poeta ter afirmado que a matéria de sua poesia era o tempo, esta tivesse conquistado um status atemporal, sempre atual, que só as grandes obras literárias conquistam. Alcides Villaça, professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e grande estudioso da obra drummondiana, definiu lindamente essa perenidade da poesia de Drummond: “O Drummond é um poeta até certo ponto difícil, mas quando entra na vida de alguém não sai mais. É desses escritores que são capazes de revelar para você elementos fundamentais daquilo que se pode chamar de uma personalidade comum do homem moderno, traços comuns do homem moderno, que Drummond detectou e expressou como ninguém. Esse, para mim, é um fundamento, aliás de toda grande poesia, que a dele cumpre em um grau de excelência. O eu que está lá dentro tem tudo a ver com o eu fundamental que está em muitos leitores. É esse o elo que acaba fazendo milhares e milhares de leitores se interessarem e se conhecerem melhor através da poesia de um poeta aparentemente tão individualista e tão singular como Drummond… mas no eu dele cabemos nós.”